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O brilho de Paulo

Oswaldo Coimbra    04/02/2017 15:02

 

​Um canto de mulher nos chega, distante. E, emociona. Porque ela é mortal. Escreveu Simone de Beauvoir. Mas, embora aqueles sons nos façam lembrar da finitude humana, não é propriamente ela o que nos sensibiliza.
 
​Afinal, que efeito emocional pode ter, em si mesmo, o tempo médio de vida das pessoas – hoje, em torno de 71 anos? Afligiria, por ser  curto demais? Mas, outros seres vivem muito menos. Cerca de 30 minutos, uma Libélula Efémera. Um tempo 1.226.880 vezes menor.
​Produziria tédio, por ser longo demais? Se isto fosse verdade, as carpas chinesas, com seus 70 centímetros de tamanho, trariam o suicídio em suas programações genéticas. Elas vivem três vezes mais que os homens.  
 
​Na verdade, o essencial da frase de Beauvoir está na menção do modo como a mulher desconhecida emprega o tempo finito de sua existência.
 
​Ela canta.
 
​Reinventa-se, diria Darcy Ribeiro, como um ser evadido para uma “realidade paralela”, a da Música. Na qual encontra uma linguagem capaz emocionar outras pessoas. Contudo, como qualquer outro projeto existencial, também o dela – o de buscar abrigo na Música – padece da fragilidade imposta pela inafastável sombra da morte. Angustiante, não porque submeta os humanos ao império das coisas findas – aventado por Drummond. Mas por nos trazer uma experiência físico-biológica única e desconhecida.
 
​“Tenho medo de morrer. Mas não temo a morte”, resumiu Caetano Veloso. Na verdade, até os corpos celestes nos mostram que a morte é parte de um mega espetáculo encenado pela natureza. Pois, como é sabido, pelo cosmo, com os seus 13 bilhões de anos (que, aliás, revelam-no também finito), continuam a vagar luzes que emitiram alguns astros já mortos.
 
​Surpreendentemente, com pessoas também isto acontece. Por exemplo, Paulo de Tarso Santos. Jovem ainda, ele estudou intensamente a Doutrina Social da Igreja, a ponto de poder produzir uma influente obra “O cristão e a Revolução Social”. Embasado neste estudo, desenvolveu, depois, corajosa militância em favor do Socialismo Humanista Cristão, como deputado federal, secretário de Educação de São Paulo, ministro de Jango. Ainda jovem, era o primeiro prefeito de Brasília, em 1961, quando recebeu Che Guevara que iria ser condecorado do presidente Jânio Quadros.
 
​Durante a Ditadura Militar, Paulo foi preso. Teve de se exilar, com sua família, no Chile. Só não resistiu ao Mal de Alzheimer, que devastou seu cérebro. Sequer pôde registrar a perda recente de Maria Nilse, sua delicada companheira.
 
​No entanto, sua inteligência brilha como aquelas luzes sem corpos celestes. Graças ao jornal, ao livro, e à monografia de Mestrado, que, juntos, pudemos fazer, antes da chegada da doença. Neles, Paulo entoa seu canto.

 

 

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Comentários:

  1. Paulo da Silva Santos de Jesus 05/02/2017 12:12

    Olá. Eu moro em Guarulhos, Confesso, que antes de ler, o seu artigo nunca ouvirá falar de Paulo de Tarso Santos, e por isso agradeço, pois corri o risco de perder uma parte importante da história do Brasil já que minha visão não valorizava tal história até ler seu artigo. Por isso mais vez obriga

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