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Quando palavrões foram aceitos por religiosos

Oswaldo Coimbra    03/03/2017 17:11

 

A afronta do sentimento que uma pessoa nutre por alguém ou por algo é um ato de desrespeito profundo a ela. Na verdade, os sentimentos são reconhecidos como marca distintiva do homem. E, por isto, se constituem objeto de estudo de quase todas as correntes terapêuticas, dentro do amplo campo da Psicologia, entre as quais, a Psicanálise, o Psicodrama, a Psicoterapia Cognitiva e a Gestalt-terapia. Apenas alguns profissionais do chamado Behaviorismo Radical desconsideram ostensivamente a relevância deles. Isto, contudo, ocorre por ignorarem a afirmação do criador desta corrente, Burrhus Frederic Skinner, sobre a atitude deles. No seu livro “Sobre o Behaviorismo”, Skinner coloca o desconhecimento da importância dos sentimentos - assim como de dois outros fênomenos da subjetividade humana, a consciência e o estado mental -, em primeiro lugar numa lista de vinte equívocos existentes a respeito de sua teoria. Não suprepreende, portanto, que uma pessoa seja capaz de praticar atos extremos quando se sente atingida num conteúdo tão essencial de sua interioridade. 
 
Um dano particularmente grave é causado quando o sentimento cultivado é de cunho religioso. Pois, a palavra “religião” advém de “relegere” que, na língua latina, designava o ato de ler duas vezes um texto. Ligada a ela, existia “religio”, cujos significados eram “respeito, reverência”. Portanto, conclui Gabriel Perissé, doutor em Filosofia da Educação “uma pessoa vive a religião quando cuida escrupulosamente de algo muito importante, algo que deve ser cultuado”. 
 
Como, então, condenar o ator humorístico Arnaldo Taveira, por criar um pastor que apela para os palavrões para criticar algumas celebridades mal intencionadas da Teologia da Prosperidade? Se com o personagem Pastor Arnaldo, exibido nas suas atuações em vídeos postados na internet, ele manifesta mágoa intensa causada pela exploração sem pudor do sentimento de religiosidade, como reconheceu, com sensibilidade e agudeza de visão, o conhecido líder religioso Fábio Caio?
 
Situação parecida ocorreu com o dramaturgo Plínio Marcos, durante a Ditadura Militar. Sua peça “Dois Perdidos Numa Noite Suja” mostra dois homens que sobrevivem como carregadores de cargas num porto. À noite, presos num mesmo quarto de pensão, eles aliviam a tensão do trabalho exaustivo trocando pesadas ofensas entre si, num linguajar obsceno. 
 
A elite cultura burguesa do País abominou a obra de Plínio, por causa dos palavrões. A Polícia Federal proibiu que ela fosse montada. No entanto, dom Helder Câmara, cuja imagem acompanha este texto, depois de assisti-la, surpreendeu a imprensa da época, ao declarar que aquele texto de Plínio devia ser visto como uma manifestação religiosa, porque apreendia a essência do desespero humano.
 
 
 

 

 

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