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Um sentido para a vida

Oswaldo Coimbra    17/03/2017 18:08

 

Tido como um dos homens mais inteligentes de nosso tempo, o jornalista, escritor e crítico literário inglês Christopher Hitchens, ultimamente, vivia indignado com a pregação de religiosos que valorizam apenas o sofrimento humano. Prometendo, como recompensa, um, para ele, fantasioso gozo eterno num paraíso celeste.
Curiosamente, no entanto, a pregação combatida por Hitchens, feita nos anos mais duros da Ditadura Militar, guardaria uma desconcertante coincidência com o discurso de parte dos oposicionistas clandestinos que aderiram à luta armada, porque não lhes restava outro caminho  para evitar a passividade cúmplice diante da opressão política imposta aos brasileiros. Eram pessoas que abdicavam generosamente de vida familiar, carreira profissional, conforto obtido através de trabalho, para se exporem à prisão, tortura, ao exílio e à morte, em busca de um País socialmente justo, num futuro também incerto. 
Mais tarde, esta dura abdicação seria reavaliada por algumas delas. Por exemplo, Fernando Gabeira, que tinha sido torturado durante sua prisão política no Brasil. Ao retornar do exílio na Europa, ele declarou: “Não posso esperar a Revolução para ter um orgasmo”. 
Aceitar o sofrimento, adiando voluntariamente os prazeres individual a Igreja Católica sempre viu como possibilidade de transcendência humana. A vida poderia adquirir um sentido num plano supostamente mais elevado que o das circunstancias cotidianas, dentro de um antiga visão judaico-cristã, na qual Deus se mostra como pai severo que premeia seus filhos, depois de  submetê-los a grandes sacrifícios.
Encontrar um sentido para a existência humana é uma necessidade premente quando  surge numa comunidade um sentimento coletivo de desnorteamento, apatia e abandono pela evidência da presença de perversidade na atuação de seus governantes. Não por acaso, há hoje no Brasil, cerca de 11,5 milhões de casos de depressão, segundo a Organização Mundial da Saúde. Doença cuja dramaticidade foi traduzida visualmente, com vigor, na imagem criada por Emily Clarke, que acompanha este texto. 
No entanto, ninguém precisa desprezar a vida para poder cultivar sua religiosidade. O privilégio de “ter um Deus dentro de si”- lembra o teólogo Leonardo Boff -, já na Grécia Antiga foi verbalizado por uma sequência de expressões concentrada, em Português, numa única palavra: entusiasmo. Sinônima de enlevo, gozo, alegria e prazer. 
De mesmo modo, ninguém precisa renunciar aos prazeres do cotidiano para no ato heroico de enfrentamento da opressão social. Herbert de Souza, outro ex-exilado político da Ditadura Militar, que depois, criou o Programa Fome Zero, provou isto, no momento de sua morte. Vítima do vírus da Aids, contraído numa transfusão de sangue, Betinho, como era conhecido, já agonizante, fez um último pedido a seu filho. Que lhe comprasse, num bar, defronte a seu hospital, uma latinha de cerveja gelada. Assim, antes de sair da vida, sentiu outra vez a agradável sensação que lhe provocava na garganta a passagem daquela bebida.    
Quanto a Christopher, morreu, aos 61 anos porque tinha fumado e bebido demais. Não quis se privar destes prazeres.     
 

 

 

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