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Separados. Não só por suas aparências

Oswaldo Coimbra    29/04/2017 08:20

 

As palavras habitualmente empregadas por uma pessoa são um item fundamental da sua caracterização social, como sabem os criadores de narrativas, pois, na composição de um personagem também deve existir coerência entre o modo como ele fala e o espaço social a que pertence.
 
O próprio campo de estudos dos sentidos das palavras, a Semântica, leva em conta esta ligação entre um modo de falar e um espaço social. Pierre Guiraud, em seu livro “A Semântica”, afirma que as palavras têm um sentido sociocontextual. Elas lembram, diz ele, não só as imagens daquelas pessoas que as empregam frequentemente, como lembram, também, as situações sociais nas quais tais pessoas estão inseridas.
 
Assim, cada um de nós é prisioneiro do vocabulário próprio ao papel que mais profundamente nos identifica socialmente. Apenas numa única situação a ampliação de nosso vocabulário dá brilho ao desempenho do papel que desempenhamos, reforçando ainda mais nossa identidade social: quando as palavras que incorporamos são aceitas no nosso espaço social. Se não são aceitas, o uso daquelas novas palavras criará, no mínimo, uma sensação de estranheza em relação ao nosso modo de falar. E, em alguns casos, deixam a impressão (ruim) de que queremos parecer o que não somos. Quando percebemos isto, inevitavelmente, passamos a evitar o uso de novas palavras.
 
Não por acaso, os estudiosos das linguagens verbais dividem os vocabulários de que dispomos em ativo e passivo. O ativo é aquele que empregamos, e, assim, mantemos vivos em nossa mente. O passivo é aquele que raramente ou nunca usamos, e, por isto, tendemos a perdê-lo.
 
Para o campo da Expressão Verbal, cuja maior aspiração é contribuir para a ampliação dos recursos individuais na comunicação por meio das palavras, é muito grave o fato de não termos oportunidades de usar uma parte de nosso vocabulário simplesmente porque ela não é aceita pelas pessoas com as quais convivemos em nosso espaço social.
 
Ninguém pode ser privado do direito de ir além das suas circunstâncias, isto é, de transcendê-las. A transcendência é, aliás, uma das mais profundas necessidades humanas. Mas quantas pessoas podem mencionar esta palavra – transcendência – em seus espaços sociais, sem parecerem pernósticas ou pretensiosas?
 
 
 

 

 

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