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CRÔNICA DA CIDADE - A triste sina da Maria Fumaça que veio de longe

Valdir Sanches    04/07/2017 10:57

 

Já que teve a honra de integrar a história de Guarulhos, Dona Joaninha, uma Maria Fumaça de respeito, merecia melhor tratamento. Não tem culpa de estar no lugar de outra locomotiva, em um espaço nobre da cidade, a praça IV Centenário. Essa que nunca esteve lá, mas deveria estar, é a do trem da Cantareira, que durante meio século trouxe passageiros do centro de São Paulo para Guarulhos.

Dona Joaninha prestou bons serviços, mas a uma usina da região de São Carlos, a 250 quilômetros daqui. Foi instalada na praça IV Centenário há quatro décadas, em 1976. Só, abandonada no correr dos anos, atacada pela ferrugem, está em grave estado de degradação.

O trem da Cantareira partia da Estação Tamanduateí, no Pari, que ficava na margem esquerda do rio, onde hoje passa a avenida do Estado. Seguia para o norte, atravessava o Tietê e ia em frente – mais ou menos como agora faz o metrô. Em certo ponto, um ramal derivava à direita, para chegar ao Jaçanã, que se chamava Guapira, e a Guarulhos.

O cenário oferecido nas janelas eram os arredores bucólicos da São Paulo de 1,6 milhão de habitantes; ou os da Guarulhos de 34 mil.  A Maria Fumaça corria, se é possível dizer assim, em trilhos de bitola estreita, de 60 cm. Puxava três vagõezinhos de madeira, com bancos fixos, como os dos bondes. Sempre cheio, ia a 50 quilômetros por hora, no plano. Nas subidas, bufava a 15 por hora.  

Na década de 1950, construiu-se a linha com bitola de 1 metro. As Marias-Fumaça agora eram maiores, puxavam cinco vagões fechados. Mas não podiam correr mais do que os mesmos 50 quilômetros por hora das suas antecessoras. As estações eram perto uma da outra; mal o trem embalava já estava chegando na seguinte. Além disso, havia o trânsito. Os carros não respeitavam o trem nos cruzamentos.

As fagulhas lançadas pela chaminé da Maria Fumaça eram um problema para as donas de casa, com quintais situados ao longo da estrada. A roupa estendida nos varais ficava cheia de furinhos. O mesmo acontecia com o terno dos passageiros.

Quando caminhavam pela cidade, sempre havia alguém para gozar: “Ô Cantareira”. Uma pessoa com terno furadinho só podia ter descido daquele trem.   

Dona Joaninha não proporcionou nenhuma dessas aventuras lá pelas bandas de São Carlos. Ficou quinze anos inativa, depois que a ferrovia por onde corria foi desativada. Estava em muito bom estado, quando um comprador de sucatas a descobriu.  



O sucateiro fez um ajuste com a Prefeitura de Guarulhos, e Dona Joaninha foi instalada na Praça IV Centenário. Reparava-se assim, a falta de não haver uma Maria Fumaça do trem da Cantareira, na praça que ainda tem a estação original daqueles tempos.

E ali ficou Dona Joaninha, abandonada. No correr das décadas a ferrugem foi-se alastrando, a ponto de provocar buracos no piso da cabine do maquinista. Alguma coisa (possivelmente um árvore) chocou-se com a chaminé e a deixou amassada. O aspecto geral é de indigência. Desta vez, seguramente nenhum sucateiro se interessará por ela.

(A história completa de Dona Joaninha está na página São Paulo Antiga, do jornalista Douglas Nascimento. As memórias do trem da Cantareira fazem parte de reportagem que o autor deste texto fez em 2010.)   
                                      
O Trem das Onze
    

Adoniram Barbosa nunca morou no Jaçanã, como diz a letra de Trem das Onze, que remete ao trem da Cantareira. Por que, então, o bairro aparece na música? , perguntou-lhe um jornalista, em anos recentes.

“Porque eu precisava de uma rima, e Jaçanã rima com manhã”, foi a resposta.

“Moro em Jaçanã

Se eu perder esse trem

Que sai agora às onze horas

Só amanhã de manhã.”

A resposta não deve ser vista como desamor pelo bairro. Num dia de 1966, Adoniran desceu de um carro, em frente à Estação do Jaçanã. Era o convidado especial para uma cerimônia triste. A estação seria demolida. O convidado não chegou de trem, porque os trilhos haviam sido retirados um ano antes.

Na plataforma da estação, misturou seus sucessos. Pôs-se a cantar: “Cada táuba que caía, doía no coração.” Trecho, como se sabe, de Saudosa Maloca.
 

 

 

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Comentários:

  1. Ricardo 04/07/2017 21:48

    vergonha sem limites

    Por esse mundo fora, criam-se roteiros turisticos de trem, fazem-se museus, contam-se histórias, trazem-se turistas e ganha-se respeito e admiração. Por aqui, nem se cuida do trem, nem da praça cheia de mato e delinquentes, pedintes e drogados... Nem iluminação decente tem.

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