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Despedidas doces (e amargas) da vida

Oswaldo Coimbra    25/08/2017 19:09

 

Já estava próximo de completar um século de existência Antônio Cândido de Mello e Souza, quando uma hérnia de hiato inoperável o matou, em São Paulo, no dia 12 de maio, deste ano. Foi o último a morrer, entre três titãs da cultura brasileira que desapareceram nos últimos anos – todos longevos. No caso de Cândido, depois de ter influenciado diretamente, como professor, importantes estudiosos da Literatura Brasileira, de várias gerações, dentro e fora de nosso país, como Davi Arrigucci e José Miguel Wisnik. Um mérito reconhecido com honrarias acadêmicas oficiais. Na USP, na UNICAMP, na UNESP. E, até na Universidade da República do Uruguai.  Outros estudiosos contaram com seus ensaios de críticas literárias. Escritos de modo refinado, com erudição. E leveza de um estilista da linguagem, merecidamente premiado no Brasil e em Portugal. 
 
Cândido (na foto postada junto com este texto) se manteve lúcido, até seus últimos momentos - revelou Mariana, filha dele. Entristecido e preocupado com as guerras no mundo, a violência urbana e as perdas de conquistas de direitos, no Brasil. 
 
Morreram em julho de 2014, os outros dois titãs, Ariano Suassuna e Rubem Alves. O primeiro, com 77 anos, o segundo, com 71. 
Ariano, o talentoso defensor da cultura nordestina, autor de “Auto da Compadecida”, teve seu corpo velado pela presidenta Dilma, por ministros, governador e arcebispo. Pelo “Brasil oficial”, como afirmou a neta dele, Germana, num discurso de despedida. Mas – ela acrescentou – Ariano gostava mesmo era do “Brasil real”. Foi para gente desta parte do País que ele deu, dias antes, suas aulas-espetáculos, com “alegria e festa”, disse Germana. Gente que o amava, como os populares de Recife que acorreram em grande número a seu velório, aplaudiram a passagem de seu féretro, num carro de bombeiro, e jogaram pétalas de flores sobre seu túmulo.
 
Rubem Alves, nos obituários dos meios de comunicação, foi apresentado como “um dos intelectuais mais respeitados do Brasil”. Corretamente. Pois, ele conseguira, na sua destacada atuação pública-profissional, juntar competências de pedagogo, filósofo, poeta, ensaísta, teólogo e psicanalista. Ainda assim, para brasileiros que o amaram, em todas as regiões do País, ele era, sobretudo, um encantador contador de histórias - como cronista e autor de livros infantis. Marcos, filho de Rubem, disse aos jornalistas: “O legado que ele deixa é o de quem mostrou que a gente pode ser muito feliz com as coisas simples: o vento, as árvores”.
 
Infelizmente, nem todas as figuras que se destacam no universo cultural brasileiro alcançam idade avançada e saem da vida como estes três gigantes. Alguns se tornam amargos desdenhadores do que eram, antes. Traem admiradores e seguidores. Como fez o grande poeta Ferreira Gullar, morto aos 86 anos, em 2016. E fazem, hoje, dois quase octogenários: o jornalista Fernando Gabeira, e, o cineasta Arnaldo Jabor.    
 
 

 

 

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