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A velhice sem sonhos juvenis

Oswaldo Coimbra    01/09/2017 21:11

 

Há quarenta anos, Ferreira Gullar, Arnaldo Jabor e Fernando Gabeira eram personalidades do meio cultural brasileiro consideradas agentes inovadores e criativos, que alimentavam sonhos revolucionários de Justiça Social, em suas respectivas áreas de atuação – a Literatura, o Cinema e o Jornalismo. Em comum, tinham o acúmulo de sofrimentos e perseguições impingidos pela Ditadura Militar implantada no Brasil, uma década antes.
 
Mas, ao se tornarem septuagenários, desde o ano 2.000, já não eram mais os mesmos. Dedicavam-se a combater quem tinha se mantido fiel aos seus sonhos juvenis. 
 
O caso de Ferreira Gullar foi o mais emblemático. Era considerado nosso maior poeta vivo, em 1976, quando publicou “Poema Sujo”, aclamado por Vinicius de Moraes  como “o mais importante poema escrito em qualquer língua, nas últimas décadas”. (Sua aparência, na época, está na foto que acompanha este texto) 
 
Ele militava, ainda, no Partido Comunista Brasileira. E, havia sete anos, passara a viver clandestinamente. Pois, antes mesmo da derrubada de João Goulart, em 1964, quando a sede da UNE foi queimada, ele tinha atuado politicamente como presidente do Centro Popular de Cultura, da entidade estudantil. À qual havia emprestado seu brilho intelectual. Reconhecido desde 1953. Com 23 anos, na época, tinha publicado “Luta corporal”, uma obra precursora da corrente literária Concretista.
 
“Poema Sujo”, ele iria escrever aos 46 anos, compulsivamente. Num período de desespero. Estava no seu terceiro exílio, o da Argentina. Depois de ter vivido na União Soviética e no Chile. Achava, na ocasião, que seria morto pelos militares brasileiros. Não sem razão. No ano seguinte, 1977, quando ousou desembarcar no Rio de Janeiro, agentes federais o prenderam e ameaçaram de morte - a ele e à família dele.
 
Contudo, octogenário, em 2014, tinha conseguido abolir em si mesmo completamente qualquer aspiração revolucionários. Defendia esta tese: “Toda sociedade é, por definição, conservadora, uma vez que, sem princípios e valores estabelecidos, seria impossível o convívio social”.
 
Morreu, em 2016, aos 86 anos, quando a TV Globo queria torná-lo “poeta pop”, observou Paulo Moreira Leite, no artigo: “Gullar: decadência política de um grande poeta”. Assinalou ainda o jornalista: “Nem Ana Maria Braga deixou de citar um de seus versos na abertura do seu programa. E o papagaio José aproveitou a oportunidade para mandar um beijinho póstumo no ar”.
 
O caso de Gullar, assim como o de Jabor, estão incluídos naquilo que o jornalista Fernando Brito escreveu sobre Gabeira: “Nada é mais deprimente do que ver uma pessoa devorar, cada vez com menor pudor, a história de sua juventude, de seus tempos mais generosos, de sua coragem mais desprendida, de seu amor mais sem interesse”.
 
 
 

 

 

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