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Viventes de São Paulo (2): o Rei

Oswaldo Coimbra    03/11/2017 21:26

 

Quando estreei como estagiário do “Última Hora” de São Paulo, aos 19 anos, recebi a incumbência de cobrir a chegada a Congonhas de Roberto Carlos. Ele vinha da Itália, depois de vencer o festival de San Remo, no qual cantou a música de Sérgio Endrigo, “Canzone Per Te”, como registra a foto postada com este texto.
 
No aeroporto, vi o Rei acenar, na porta do avião, para a grande massa humana que o esperava. Meses depois, porém, tinha-o diante de mim, e, pude perguntar-lhe se imaginava encontrar tanta gente naquela ocasião. Indagação  boba que visava amaciá-lo para o que viria depois. Sua resposta me surpreendeu somente porque nela apareceu uma palavra de origem latina. Inesperada na linguagem do roqueiro-mor do País, supostamente, preso ao vocabulário juvenil da época, composto quase só de gírias. “Não esperava tanta magnitude”, disse ele. 
 
Estávamos, então, na garagem do prédio onde RC morava, na Rua Albuquerque Lins. Eu e o lendário fotógrafo Paulo Salomão. Acabáramos de vê-lo desembarcar de um de seus vistosos carrões, ambos envolvidos numa trama concebida no quinto andar do prédio da Editora Abril, na Avenida Marginal, onde funcionavam, lado a lado, as Redações das Revistas Realidade e Intervalo. 
 
A parte mais delicada da missão cabia ao fotógrafo: registrar, juntos, na mesma foto, o Rei e José Hamilton Ribeiro, nosso colega, repórter da Realidade. Zé Hamilton, como o chamávamos, escrevia numa mesa, separada de nós, jornalistas de Intervalo, por uma divisória baixa e removível. Havia poucos dias, pegáramos, juntos, carona no carro de Laís de Castro, também de Intervalo. E, durante o percurso até o centro da cidade, ele nos perguntou: "Como é mesmo o nome pretencioso daquele samba lindo que foi lançado quando eu estava fora do Brasil?" Tratava-se de “Pressentimento”, realmente, obra-prima. Hamilton acabara de voltar da Guerra do Vietnã, onde havia perdido uma perna, ao pisar numa mina armada pelos vietcongs. O País inteiro tomara conhecimento da tragédia que atingiu o único repórter brasileiro a cobrir aquele conflito, afora o escritor Antônio Calado.   
 
Disto vinha o valor jornalístico daquela imagem. Porque, como é sabido, Roberto Carlos, vítima de amputação semelhante, na infância, tinha transformado seu trauma num segredo de estado. Portanto, bastava aquela foto para derrubar o tabu criado por ele. Qualquer pessoa, ao vê-la, logo compreenderia por que os dois se juntaram para conversar. 
 
Roberto gostava de Salomão. Explicava, revelando seu lado “bad boy”: ele tinha “cara de bandido”. Meu parceira, na verdade, se parecia com um revolucionário: Pancho Villa. Salomão reagia, só entre amigos. Chamava o Rei de “Manquinho”.
 

 

 

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