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Viventes de São Paulo (3): o Menestrel

Oswaldo Coimbra    10/11/2017 19:03

 

Tive a primeira experiência de escrever para uma publicação, de modo atípico, aos 19 anos de idade, em São Paulo. A atipicidade estava no fato de não saber o que acontecia com meus textos, depois de prepará-los.  Pois, os deixava com quem os encomendava, Wolney Rabelo, antigo secretário do Hoje, jornal comunista já extinto. E ele, por sua vez, os repassava a Álvaro de Moya, respeitado precursor dos estudos de História em Quadrinhos na universidade brasileira. Moya precisava deles para editar o Jornal Jovem, publicação que idealizara, para circular entre leitores adolescentes. Ocorre que jamais vi um único número do jornal. Sequer soube se chegou a circular. 
 
Naquele período, eu convivia diariamente com Wolney. E com outros comunistas, como ele, pertencentes à geração de humanistas esquerdistas que enfrentou profunda crise existencial com as denúncias dos crimes de Stalin, feita pelo líder soviético Nikita Khrushchov. Uma das pautas que Wolney me deu me obrigava a entrevistar o cantor-compositor Juca Chaves. Artista narigudo que cultivava a extravagância de se apresentar sempre descalço, mesmo quando vestido com paletó e gravata. E, se intitulava de “Menestrel Maldito” por tocar instrumentos de cordas medievais, quando cantava a bela melodia de “Por quem sonha Ana Maria , e, outras músicas cujas letras continham frases irônicas sobre o próprio nariz dele e sobre os ex-presidentes Jango e Jucelino. 
 
Juca morava na cobertura de prédio da Praça da República. Ali, me recebeu no meio de uma manhã. No apartamente, logo me chamou a atenção a grande quantidade de obras de arte. Estavam, porém, mal distribuídas, sem nenhuma noção ou sensibilidade estéticas. Pelo menos, correspondentes ao refinamento que o cantor gostava de exibir, na sua imagem pública. Na verdade, o lugar mais se assemelhava a um abarrotado depósito de galeria de arte. 
 
Mal tínhamos nos acomodados na sala, quando notei a presença de duas moças, na cozinha. Na aparência, à procura de desjejum. E|as se movimentavam discretamente.   
 
Ao perceber que as tinha notado, Juca Chaves, de supetão, me disse: - “Comi as duas”. Fiquei chocado e perplexo com o comentário. Não tínhamos intimidade que justificasse aquela confidência despropositada. E mais: eu estava ali para tratar de Música, num momento dramático do Brasil, o da Ditadura Militar. Por que, então, Juca julgou que poderia me dizer aquilo, antes mesmo de ouvir minha primeira pergunta? Durante anos, a lembrança desta gabolice de macho idiota, num sujeito que exibia imagem de artista sofisticado, me incomodou muito.
 

 

 

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