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ESPECIAL - Centro de Guarulhos guarda resquícios da escravidão

Karla Maria - Do GuarulhosWeb    20/11/2017 09:51

 

Caminhar de forma atenta pelas ruas do centro de Guarulhos é uma das maneiras mais bacanas de ter contato com a história do município. É uma viagem pelo tempo. É pisar na história, na grande mancha preta da Rua Dom Pedro II, por exemplo, e dar a ela o verdadeiro sentido histórico que ela tem e atribui à cidade.
 
Aquela mancha que pode passar despercebida pelos olhos e pés apressados dos trabalhadores quer lembrar a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída no início do século 18 pelos escravos, por homens e mulheres negras. É a história da escravidão, da identidade e da resistência do povo negro do município.
 
O GuarulhosWeb percorreu o centro da cidade com munícipes nesta sexta-feira, 17, acompanhada pelo historiador e sociólogo Mauricio Pinheiro. A atividade fazia parte do curso “Memorial Afro Guarulhos, Centro Histórico”, oferecido pela Subsecretaria de Igualdade Racial.
Pelo percurso avistamos alguns dos elementos arquitetônicos da cidade que lembram a história do povo negro. Mas são poucos. “A cidade é e foi construída a partir das relações de poder, ela é um espaço de todos, mas o que você vê nela é sempre a representação daquilo que está como poder estabelecido. Os negros aqui nunca tiveram esse poder, ao contrário”, disse o professor apontando a demolição da igreja em 1929.
 
Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos 
O templo criado no início do século 18, não se sabe a data exata, ficava a 250 metros de distância e de frente para a Catedral de Guarulhos, dedicada a Imaculada Conceição, “o templo dos brancos”. Não era apenas local de oração e sim de confraternização, de muita festa e de mobilização contra a escravidão que impunha sofrimento a parte dos habitantes de Guarulhos e de todo o Brasil.
 
“As irmandades não eram só espaço de prática religiosa e cristianismo, em muitos momentos eram espaços de lutas contra a escravidão”, ensina Pinheiro.
 
Em 1804, de acordo com dados obtidos no Arquivo Público do Estado de São Paulo pelos historiadores Elton Soares de Oliveira e José Abílio Ferreira, a então Freguesia de Nossa Senhora da Conceição dos Guarulhos tinha 3.435 habitantes. Destes, 705 eram escravos, sendo 349 homens e 356 mulheres.
 
Entre 1871 e 1881, estima-se que mais de 300 mil escravos foram vendidos no mercado interno brasileiro, especialmente da região nordestina para as plantações de café do Sudeste. O auge deste comércio em Guarulhos se deu em 1874, no período em que a cidade teve o seu menor número de habitantes, 2.379. Acredita-se que essa diminuição se deu pela partida de muitos senhores com seus escravos.
 
Pouco depois disso, em 1929, a igreja construída pelos escravos e dedicada a Nossa Senhora do Rosário foi demolida sob o argumento de uma reestruturação da área central para o desenvolvimento urbano, o que, para Elmir Omar, historiador e pesquisador do tema, não passou de uma “estratégia do processo de branqueamento”. 
 
“A velha igreja que era referência da presença negra foi demolida, sendo uma das justificativas a expansão urbana em função de alargamento da Rua Dom Pedro II que, diga-se de passagem, não foi feita de modo pleno até hoje”, escreveu o historiador em seu artigo Negros em Guarulhos.
 
A igreja foi reconstruída e ainda hoje permanece ali, na esquina da Rua João Gonçalves com a Sete de Setembro, como símbolo da presença do povo negro na cidade, de um tempo em que os negros eram propriedade de seus senhores.
 
Rua Luís Gama
Coincidência ou não, a poucos metros dali está a rua que leva o nome do advogado, jornalista e abolicionista Luís Gama. Não há nenhuma indicação de quem foi esse homem, apenas a placa do logradouro com o nome de Gama escrito erroneamente com Z. Mas a história registra que o colega negro foi um dos brasileiros que lutou pela liberdade dos escravos. 
 
O livro Origens da Presença Negra em Guarulhos – A África em Nós destaca que, nesta rua, “os pretos transportavam seus mortos entre a Igreja do Rosário e a parte a eles reservada no Cemitério São João Batista, inaugurado em 1891”. Luis Gama morreu em 1882, antes do fim da escravidão em 1888.
 
Para o funcionário Público Fernando Aparecido de Morais, 51 anos, que percorreu as ruas do centro junto com a reportagem, aquela marca preta no chão na Rua Dom Pedro II agora tem outro sentido. “Eu conheço a história de Guarulhos, mas olhava aquela marca no chão e não entendia. É importante resgatar a história do nosso povo e contar para os jovens, porque de certo modo a escravidão continua, diferente, mas continua”.
 

 

 

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