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Índios escultores na Amazônia de 1700

Oswaldo Coimbra    15/12/2017 19:34

 

Lúcio Costa se tornou um arquiteto mundialmente conhecido quando Brasília começou a ser construída, a partir de 1957, de acordo com um projeto urbanístico modernista criado por ele. 
 
Vinte anos antes, porém, Lúcio estava envolvidos com construtores que seguiam um estilo arquitetônico muito distanciado na História das Artes, do Modernismo. Ele se dedicava à preparação de um ensaio sobre as obras barrocas deixadas pelos jesuítas, no Brasil, para publicação na edição de janeiro de 1941 da Revista do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. No desempenho desta tarefa, ele visitou a igreja jesuítica de Santo Alexandre, em Belém, erigida no período de 1680 a 1720. Nela, dois púlpitos esculpidos em madeira deixaram Lúcio extasiado.  Depois, ele escreveria no ensaio: “revelam um tal fervor, tamanho arrebatamento, que a sua análise não cabe dentro dos limites comedidos de uma crítica objetiva”. 
 
Aquelas gigantescas esculturas são obras de Johann Treyer, um jesuíta que chegou, com pouco mais de 35 anos de idade a Belém, no início dos anos de 1700. Tornando-se responsável pela oficina onde índios aprendiam Escultura., Com eles, Treyer esculpiu também as peças ornamentais –retábulos – que rodeiam as imagens de santos nos altares do templo.   
 
As linhas mestras dos desenhos destas peças, escreveu ainda encantado Lúcio, “quase se perdem, levadas pelo ímpeto e pela profusão de formas que irrompem por toda a parte”. 
 
Treyer passaria outros 35 anos, sem jamais retornar à  Tirol, na Áustria, onde nasceu. Morreu com 70 anos, num acidente de barco,  quando ia para uma das muitas aldeias indígenas da Amazônia que sua ordem controlava.  
 
Dois dos alunos dele, “os índios de Gibirié”, revelariam extraordinários talentos. A eles é atribuída a autoria da imagem do Anjo Tocheiro, que, até hoje, está no Museu de Arte Sacra de Belém, ao lado da igreja. Muitos europeus – conta Serafim Leite em “História da Companhia de Jesus no Brasil”, - quando viam a escultura, cogitavam em voz alta: “Imaginem o que estes índios não fariam, se exercessem o ofício de entalhador por alguns anos?” 
 
O próprio Trayer, porém, não parecia admirar seus pupilos. Ao contrário, numa carta enviada a outro religioso, em março de 1705, Trayer mostra como via os índios amazônidas: “um rebanho de porcos nutridos” com “instintos suínos”. Um dos jovens aprendizes teve de ser tratado com palmadas, ele próprio conta.  Assim como uma índia, foi açoitada por ordem de outro religioso por teimar em não cobrir a parte inferior de seu corpo. A carta do arquivo central da Companhia de Jesus - o Archivum Romanum Societatis Iesu - foi traduzida por Fernando Aymoré, historiador da Universidade de Mainz, na Alemanha. 
 

 

 

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