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O monumento de um Indiana Jones de batina

Oswaldo Coimbra    22/12/2017 20:03

 

O Padre Antônio Vieira é considerado pelos historiadores como a maior personalidade humana e cultural do reino português, no século XVII. Confessor particular de Dom IV, ele participava do âmbito privado da vida do Rei. Merecendo a total confiança dele, a ponto de ser incumbido de uma delicada missão secreta: buscar financiamento para a compra de armas que garantissem a Portugal sua independência em relação à Espanha. 
 
No desempenho desta missão, Vieira, ousado, não temeu desafiar a poderosa Inquisição portuguesa. Estabeleceu entendimentos com judeus ricos, capazes de fornecer aqueles recursos. Prometendo, como contrapartida, que o Rei e outras autoridades moderariam a intolerância com o povo judaico, aceitariam o regresso deles a Palestina, admitiriam o estabelecimento de um estado judaico-cristão, e, acatariam a possibilidade de novo advento de Cristo. A desenvoltura de Vieira irritou até a própria Companhia de Jesus, ordem a que ele pertencia. O embaixador de Portugal em Roma, Duque do Infantado, chegou a promover um atentado contra ele. 
 
Vieira foi banido da metrópole. Exilaram-no no Gram-Pará, estado independente do Brasil, dentro do reino de Portugal. 
No dia 5 de outubro de 1653, ele desembarcou em Belém, detendo ainda, seu enorme poder de influência sobre o rei.
 
A economia do Gram-Pará, àquela altura, era sustentada pela exportação de cravo, salsaparrilha, baunilha, cacau e outros produtos da floresta amazônica. “Drogas do sertão” coletadas pelos índios, cuja mão-de-obra vinha sendo monopolizada (e acirradamente disputada) por jesuítas, franciscanos, mercedários e carmelitas. Os jesuítas gozavam de vantagens em relação às demais ordens, graças à atuação de Vieira, na Corte. O que gerava muitos ressentimentos.  
 
Em Belém, Vieira passou a desmerecer a importância das ordens concorrentes dos jesuítas nas cartas que escrevia para as autoridades portuguesas. Num sermão que proferiu nas festas de Santo Antônio, ele desafiou os portugueses radicados no Gram-Pará,  que também queriam se beneficiar com a mão-de-obra indígena, levantando contra ele um clima de aberta hostilidade na colônia. Em determinado momento, aqueles colonos portugueses conseguirem maior acesso aos índios através de seus representantes em Lisboa. Vieira não se conformou.
 
Embarcou num navio, com destino a Lisboa, alimentando o propósito de reverter aquelas conquistas. No meio da viagem, outro contratempo. Seu navio naufragou. Ele foi salvo por um pirata holandês. Que, no entanto, pretendia apenas assaltá-lo. Em seguida, foi abandonado numa ilha chamada Graciosa. Contudo, por fim, chegou a Portugal. E recuperou os privilégios dos jesuítas, por meio de nova legislação sobre os índios - o Regimento de 1655 – assinado pelo rei. Com a nova vitória, retornou ao Gram-Pará. E pôs sob “proteção” – isto é, a serviço - dos jesuítas mais 40.000 índios da tribo dos Nheengaíbas. Porém,   selou seu destino. No dia 17 de julho de 1661, os colonos portugueses o prenderam.E, aos empurrões, o enfiaram numa canoa, da qual passou para o navio que definitivamente o devolveu a Portugal.
 
Todavia, em Belém permanece, desde os anos de 1700, exuberante  prova da riqueza que o trabalho de 150 mil índios forneceu à Companhia de Jesus, no Gram-Pará. O belíssimo conjunto arquitetônico de Santo Alexandre que a ordem construiu.
 

 

 

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