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Quem era Poesia para Vinicius de Moraes

Oswaldo Coimbra    12/01/2018 18:09

 

Poeta é o ser capaz de descobrir novos sentidos para palavras gastas por uso excessivo. Opõe-se a quem lhes dissipa o valor, empregando-as impensadamente. Vinicius de Moraes deixou um único registro do uso da palavra Poesia, de valor quase sagrado na área das suas criações mais nobres, para designação de uma pessoa. O registro ficou numa crônica de Fernando Sabino, “O gerador de Poesia”, dedicada ao paraense Jayme Ovalle, cuja foto está postada junto com este texto. 
 
Quando se preparava para escrevê-la, o escritor mineiro quis saber como o poeta definiria aquele filho de Belém. Vinicius, entusiasmado, fez-lhe esta descrição atordoante: “É o poeta em estado virgem. A mais bela crisálida de Poesia que jamais existiu, desde William Blake. É o mistério poético em toda a sua inocência, em toda a sua beleza natural. É vôo, é transcendência absoluta. É amor em estado de graça”. 
Antes de conhecer Ovalle, o próprio Sabino, como ele contou naquela crônica, sabia só da fama dele. “Mas – o cronista prosseguiu -  era ainda um mito, de contornos imprecisos, cuja existência eu atribuía a em parte à imaginação criadora de seus amigos. Até que vim conhecê-lo pessoalmente – e foi um impacto para a minha vida. Nosso convívio diário, durante quase três anos, era um deslumbramento permanente para a minha sensibilidade”. 
 
Também Carlos Drummond, Murilo Mendes, Augusto Frederico Schmidt, Olegário Mariano, Murilo Mendes e Otto Lara Resende, entre outros, se encantaram com Ovalle. Que, sem nenhuma obra publicada, espantosamente – diz seu biógrafo, Humberto Werneck, em “O Santo Sujo” - deixou marcas fundas e reconhecíveis nas Artes de seu tempo. “Não só pelos achados poéticos e espirituosos que cravejavam sua conversação, como por simplesmente existir, extraordinário personagem que era". Capaz de espalhar em seu redor estimulante influência, com uma criatividade inocente, anárquica e dispersiva.   
 
Mais íntimo do paraense, ainda, foi Manuel Bandeira. Ele chegou a escrever o “Poema só para Jayme Ovalle”. E produziu um texto como letra para a música “Azulão” composta por Ovalle, sem ter tido nenhuma formação musical formal. E que Bidu Sayão, a maior cantora lírica brasileira, introduziu no repertório das grandes divas mundiais da Ópera.
 
Com esta incurso pela Música, Ovalle deslumbrou Mário de Andrade, também musicólogo. Que também se apegou ao paraense. A ponto de, mais tarde, escrever numa carta a Bandeira: “quem é mesmo uma maravilha é Ovalle. Que sujeito bom e, sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo pra eu ser eu queria o Ovalle”. Mário estava apto a avaliar o valor daquele compositor intuitivo. E, em outra carta a Bandeira, garantiu: Heitor Villa Lobo se deixou influenciar musicalmente por ele. Acrescentando: a influência de Ovalle foi “profunda e já fez muito bem ao Villa”.
 
Em 1955, Ovalle morreu de enfarte, aos 61 anos. Abalado, Vinicius de Moraes dedicou-lhe o poema “A última viagem de Jayme Ovalle”: "Ovalle não queria a Morte/ Mas era dele tão querida/ Que o amor da Morte foi mais forte/ Que o amor de Ovalle à vida./ E foi assim que a Morte, um dia / Levou-o em bela carruagem /A viajar – Ah!, que alegria! / Ovalle sempre adora viagem! /Foram por montes e por vales / E tanto a Morte se aprazia/ Que fosse o mundo só de Ovalles / E nunca mais ninguém morria"
 
 

 

 

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