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Num chão sem estrelas

Oswaldo Coimbra    02/02/2018 18:12

 

Desconhecido no campo da prática do Jornalismo, no entanto, ele está entre seus maiores craques. Mostram as frases curtas dos seus textos. Ainda hoje, claras e certeiras. Como jornalista, foi crítico feroz das autoridades do País. Por isto, confinado, por elas, no Presídio Frei Caneca. Quando aproveitou para observar personagens e dramas do submundo carioca e produzir uma obra-prima: “Bambambã”. No livro, a força natural do sexo que, ali, desnorteava ladrões e assassinos.
 
O nome dele? Orestes Barbosa. Também, o criador de textos capaz de outra façanha: a de transformar o amor de gente pobre, como aqueles presidiários, nos versos mais belos já criados na nossa língua, segundo Manuel Bandeira. Inseridos na letra da música “Chão de estrelas”:
“A porta do barraco era sem trinco. Mas a Lua, furando o nosso zinco, salpicava de estrelas nosso chão. Tu pisavas nos astros, distraída”. 
A seguir, dois fragmentos de “Bambambã”: 
 
“Na Detenção há amores. Os presos têm suas eleitas que vão ali nos dias de visitas. Há presos que namoram presas – há presos que namoram presos. Estes últimos são perigosos... O diretor da Detenção sabe de todo o enlevo emocional. Para ser diretor da Casa de Detenção é preciso um tino especial. À primeira vista parece não haver um grande mal num enlevo amoroso ali na sala de visitas, entretanto, mais de uma vez, os guardas surpreenderam, em início, cenas de fazer corar. Maridos que abraçam demais as esposas, de que ficam separados por longo tempo; priminhas que se chegam demasiadamente aos primos condenados; mulheres que vão lá, em largos decotes e saias leves, visitar a gente misteriosa que joga e toma cocaína – todo esse exército complicado com a Justiça quer, na visita, tirar a sua “tasca” ...
 
Mas o ilustre coronel Meira Lima não deixa...”
.....
“Naquela cidade que existe por trás daqueles muros cinzentos da rua Frei Caneca, o amor alucinante explode, como cá fora, com seus lances violentos, em explosões. Nos dias de visita, os condenados que veem rabo de saia ficam assanhados. Os que apenas ouvem as vozes femininas, passeiam de um para outro lado nos cubículos como leões. 
 
Entrou um preso com uma carta. Era carta de outro detento, o “Euclides Maluco”, que desejava matar seu companheiro, Carlos Salerno, de 19 anos... A carta do Euclides, dirigida ao Tenente Santos, terminava assim: “Perdoe, meu tenente, o gesto brusco que tive pela manhã. Não estava no meu juízo. Fiz tudo por este ingrato. Vendi a última peça de roupa que tinha. Passei noites inteiras sem dormir, quando ele esteve na segunda galeria. Pergunte ao seu Plínio se eu não passei quatro dias sem querer boia. Tudo por causa do maldito amor...”
(Ilustração: obra do pintor impressionista ítalo-brasileiro Eliseu Visconti, de 1893)
 

 

 

 

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