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Nas alturas

Oswaldo Coimbra    03/03/2018 14:05

 

O jovem que não pensa em mudar o mundo entristecia o poeta Nicolás Guillén. Ele próprio pensou. Desde os 18 anos, quando publicou seus primeiros versos. Até sua morte, 69 anos depois. Rebeldia revolucionária aflorou sempre na sua produção poética. Como em “Fusilamiento”: “Van a fuzilar/ a un hombre que tiene los brazos atados./Hay cuatro soldados/ para disparar./Son cuatro soldados/ callados,/ que están amarrados, lo mismo que el hombre amarrado que van/ a matar”.
 
Em outros versos, seu ‘eu poético’ cultivava as relações amorosas. No poema “Cancion”, se dirige assim à mulher: “De qué callada manera/ se me adentra usted sonriendo,/ como si fuera/ la primavera!/ Y de qué modo sutil/ me derramó en la camisa/ todas las flores de abril”. 
A Gullén, portanto, agradava o amor, quando dirigido a uma única pessoa, e quando endereçado a toda a Humanidade. Pois, o homem que ama voa fora da asa, escreveu o cuiabano Manoel de Barros, referindo-se à Poesia. Voa rumo às alturas da existência. “Soy hombre: duro poco/ y es enorme la noche./ Pero miro hacia arriba:? Las estrelas escriben.”, testemunhou o mexicano Octavio Paz:.
 
O mesmo ânimo transcendente, capaz de impulsionar o homem além de si mesmo, há quem encontre em outro amor. No que se dedica ao Deus que entusiasma o homem frente às dificuldades. Palavra de origem grega, entusiasmo significa exatamente “ter um deus dentro de si”. 
Mas, cuidado com o amor! Alerta a campineira Maria Rita Kehl.  Ele pode agir como droga pesada. Sobretudo em seres inseguros, que precisam controlar seus sentimentos. Pois quem ama – e, não importa, se a Revolução Social, outra pessoa, ou Deus -, vivencia profunda fusão psicológica. Incorpora em si imperativos externos. E, como escava em sua existência espaço para o que antes não estava nela, altera sua sensibilidade. O que, por sua vez, afeta seus modos antigos de pensar. De tal modo que quem submergia numa modorrenta rotina no dia a dia pode, de repente, sofrer grande aumento de sua temperatura afetiva. 
 
O revolucionário quer o céu na Terra, por amar os seres humanos. Céu que, na metáfora ousada de alguns teólogos, é um orgasmo eterno. Possibilidade que atrai especialmente amados e amantes, já acostumados com eternidade. Aquela que existe enquanto dura o amor, como ensinou o carioca Vinicius de Moraes. Mas, durante a qual podem experimentar o nível mais alto de prazer posto ao alcance dos humanos. Algo só possível com conjugação do sexo com paixão. Experiência humana. E, também, sem dúvida, celestial.  
 
(Na ilustração, a aquarela da DevianArt Gallery com os atores Jim Sturgess e Anne Hathaway, numa cena do filme “One Day”)
 

 

 

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