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O Adoniran não percebido

Oswaldo Coimbra    18/05/2018 19:08

 

Um compositor triste, angustiado. Foi o que Elifas Andreato, o maior artista gráfico brasileiro, viu por debaixo da imagem pública pitoresca e engraçada de Adoniran Barbosa. Cujo vasto repertório de música, composto por 110 peças, se tornou conhecido sobretudo através dos Demônios da Garoa. O conjunto que há mais de 50 anos, mantem-se como porta-voz artístico do compositor, projetando alegria e a animação, nas suas apresentações, como se fossem os únicos ingredientes da obra dele. No entanto, basta ouvir com atenção uma única criação de Adoniran - “Saudosa Maloca”, por exemplo – para perceber que ele inseria um substrato de melancolia nas suas melodias e registrava nas suas letras o sofrimento humano provocado pela pobreza.  
 
Por isto, não surpreende que a bela, expressiva e impactante imagem de um palhaço triste que Andreato criou para Adoniran, tenha sido reivindicada pelo compositor para si, como a única verdadeira. Depois que o diretor da gravadora dele, que havia encomendado o trabalho para uso na capa de um disco achou melhor usar outro desenho de Andreato. Hoje, seu Palhaço Triste é mundialmente conhecido. Pois, circula impresso nos álbuns especializados que reúnem grandes obras de Design Gráfico.
 
Traduzido nele há um insight perceptivo original que talvez não tivesse ocorrido se não existisse uma coincidência nas biografias dos dois artistas. Elifas e Adoniran jamais estiveram, como alunos, numa escola. Esta privação de Ensino Formal teria sido admirável se tivesse decorrido de uma opção livre, de suas famílias. Quem sabe, talvez influenciadas, por exemplo, pelo educador  inglês Alexander Sutherland Neill para quem o Ensino Formal era uma violência praticada pelo Estado contra crianças e jovens. Ao confiná-los demoradamente no espaço exíguo de uma sala, a fim de submetê-los a práticas escolares enfadonhas e inúteis,  geradoras só de ódio pelo conhecimento humano. Quando eles deviam ter liberdade para buscar o aprendizado com os qual quisessem desenvolver suas potencialidades pessoais, mesmo que isto implicasse numa recusa total à integração ao Ensino Formal. 
 
Na verdade, Elifas permaneceu analfabeto até os 14 anos por ter nascido numa família muito pobre. O que o obrigou a aprender a desenhar numa fábrica. Adoniran, que também nunca teve professor, aprendeu a manejar a linguagem expressiva e colorida presente nos seus textos, no exercício de ofícios de sobrevivência: os de garçom, tecelão, encanador, serralheiro. 
 
Adoniran era, sim, um palhaço original. Sobre a identificação que ele tinha com as vítimas da pobreza Andreato declarou numa entrevista ao site G1: "A obra de Adoniran é trágica. Com certo humor, ele conseguiu fazer a gente rir da desgraça que é a condição dessa vida",
 
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