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Paul Auster assume noção contabilística

Paulo Nogueira, especial para Estado    09/06/2018 07:05

 


Paul Auster (PA) é o mais popular romancista americano pós-moderno. A Trilogia de Nova York, por exemplo, foi comprada por milhares de leitores que não costumam nem relar o dedo na ficção experimentalista. O distrito nova-iorquino do Brooklyn tem, desde 2005, um "dia Paul Auster". E olhem que o pós-modernismo, fã da metaficção, prefere não contar uma história, mas contar uma história sobre contar uma história.

É por isso que na troposfera austeriana vira e mexe se pavoneia um protagonista escritor. Como já resmungava T. S. Eliot, cada vez mais os livros são sobre livros. Leviatã é narrado por um avatar de PA, que conta a vida de outro autor. O Homem no Escuro é relatado por um crítico literário e, em A Cidade de Vidro, um ficcionista brinca de detetive. Em O Livro das Ilusões, quem vende seu peixe é um professor de literatura. E assim por diante. Como juram alguns exegetas, são alegorias sobre a relatividade da mimese.

4 3 2 1, que PA lança aos 70 anos, é uma afirmação de um corpo ficcional. Levou sete anos a escrever e, com quase 900 páginas, pesa quase 1 halter de quilo e meio. Um paralelepípedo deste porte precisa cumprir ambições literárias correspondentes. É a saga de Archie Ferguson, neto de um emigrante judeu russo nos EUA. A partir do capítulo 1.2, a gesta do herói se ramifica em quatro Fergusons paralelos e, por isso, cada capítulo é dividido em quatro partes (2.1, 2.2, 2.3, 2.4). O naipe de personagens é o mesmo, mas singrando um curso bem diferente.

Eis o corolário ciclópico do proverbial fascínio de PA pelo acaso (A Música do Acaso é uma das obras dele), pelo imponderável, e pelos seus avessos da sincronicidade e serendipitidade (a doutrina é enunciada na abertura de A Trilogia de Nova York). O próprio Ferguson defende "o papel do acaso na arte", e é por isso que, em 4 3 21, com seu tetra-protagonista, temos um autorretrato cubista.

Há problemas, porém. Teóricos como Maurice Blanchot e Ihab Hassan realçam que o pós-modernismo espelha o modo como a linguagem contemporânea se aproxima do silêncio, em textos que se fragmentam em redor de um vazio, anunciando a sua invalidade. Bem, em 4 3 2 1, esse silêncio fala pelos cotovelos, numa tagarelice incontinente.

Como um autor-esquilo e através de um padrão de múltipla escolha que acaba escolhendo tudo, PA assume uma noção contabilística da ficção, em que nenhum detalhe ínfimo é excluído. Ora, a economia literária tradicional opera na lógica do "momento marcante", quase uma compostagem narrativa, efetuando seleções, omissões e elipses. Em sentido contrário, o faraônico 4 3 2 1 acaba por vezes por ecoar a objeção daquele crítico sobre outra obra: "Este livro me ensinou mais sobre pinguins do que eu gostaria de saber".

Pior: os quatro Fergusons são tediosamente perfeitos. Leem os livros certos, ouvem a música certa (clássica e jazz, óbvio), perfilham a política certa etc. Pena, pois como observou um autor, crítico e professor, "o protagonista perfeito tem defeitos" - são as falhas e contradições que humanizam e condimentam os personagens. Não transparecerá aqui uma hagiografia do próprio PA? Archie nasceu em New Jersey em 3 de março de 1947, e seu pai literário em 3 de fevereiro de 1947. E claro que o protagonista quádruplo exercerá a ficção, a crítica e o jornalismo. Mundo pequeno.

A questão não é tanto o ceticismo pós-moderno sobre a estabilidade da narrativa, mas a voltagem emocional que os autores conseguem ou não extrair da superfície "realista" de suas ficções. Como cravava, por exemplo, um Philip Roth. E como o próprio PA às vezes lacrou.

A pergunta é: por que um bildungsroman quadrifônico que, ao dinamitar a quarta parede, parece ocasionalmente tetraplégico? Que vantagem Maria leva com quatro protagonistas nos quais o diferente se torna indiferente? Bem, é um desafio faustiano, e os grandes autores rejeitam o mais do mesmo. E, no avantajado perímetro de 4 3 2 1, há muito de bom, como um humor e uma humanidade delicadamente calibrados, e um comentário penetrante sobre as fragilidades do liberalismo americano - a hesitante e bem-intencionada condescendência dos baby-boomers. Por isso, se por acaso (com trocadilho!) PA teve o olho maior que a barriga, não choremos de barriga cheia.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

 

 

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