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Como não amar as palavras?

Oswaldo Coimbra    20/07/2018 19:10

 

Existem quatro analfabetos funcionais em cada grupo de cem universitários brasileiros, revelou, há poucos dias, através da Folha de São Paulo, o cientista político Otávio Montenegro, apoiado nos indicadores de alfabetismo funcional, obtidos através de pesquisa pelo Instituto Paulo Montenegro, uma organização sem fins lucrativos, que se dedica à disseminação de práticas educacionais inovadoras, úteis à melhoria da qualidade da educação. Para o instituto, alfabetizado funcional é alguém capaz de entender letras e números, de se expressar através deles, elaborando textos diversos. Têm estas aptidões apenas 22% dos universitários, diz a pesquisa. 
 
Assim quanta gente parece privada da habilidade necessária para o desfrute dos prazeres contidos na boa comunicação, através da linguagem verbal! E isto ocorre num ambiente formado apenas por quem está há mais de dez anos inserido no sistema de Educação. E pertence à faixa etária de usuários diários de palavras, em média, há duas décadas, no convívio com familiares, amigos, colegas e vizinhos?
Como está sendo possível a tantas pessoas se privarem do gostoso apego àquilo que nos trazem as palavras? 
 
Algumas têm poderes mágicos, sabem as crianças. Shazam, Abracadabra, Abre-te Sésamo. Outras, são dotadas de poderes semelhantes, mas desencadeiam terríveis efeitos maléficos. Quem se atreve a dizer aquela que designa o Rei das Trevas, o Capiroto, o Coisa-Ruim, o Maligno, o Mofento. Destas, bem guardadas, algumas, estão no Livro Negro de São Cipriano, para quem quer atingir um inimigo. Porém, ali há ainda as capazes de transformar sonhos em realidade. Os de casar e os de enriquecer, por exemplo.  
 
Mesmo as palavras comuns têm algo encantatório: sons. Sabem bem os poetas, habituais exploradores de sua musicalidade. Há muito tempo. Como o fidalgo Joam Roiz de Castel-Branco, morto em 1515, que empregou-a para criar um discurso de sedução da amada. Escreveu-o como se preenchesse partituras – com sons harmoniosos e ritmo - na “Cantiga sua partindo-se”: “Senhora, partem tão tristes meus olhos por vós, meu bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém. Tão tristes, tão saudosos, tão doentes da partida, tão cansados, tão chorosos, da morte mais desejosos cem mil vezes que da vida. Partem tão tristes os tristes, tão fora de esperar bem, que nunca tão tristes vistes outros nenhuns por ninguém”.
 
Além disto, impressas, as palavras são manchas, nas páginas dos livros e das revistas. Os efeitos visuais obtidos com elas servem a poetas e designers.
 
Há ainda as palavras que proporcionam prazer sexual. Escritas nas paredes de banheiros. E, trocadas por quem sem relaciona eroticamente através da internet. Outras, apenas exprimem meiguice. Como as de Chico Buarque: “Agora, eu era herói e o meu cavalo só falava inglês... No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido”. E há aquelas docemente afetuosas, como as externadas por Dolores Duran: “Hoje eu quero paz de criança dormindo e abandono de flores se abrindo. Para enfeitar a noite do meu bem. Quero a alegria de um barco voltando, quero ternura de irmãos se encontrando. Para enfeitar a noite do meu bem”
 
Como não amar as palavras, então? Ser íntimo delas, sobretudo, nas universidades?
 
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