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Como no País de Alice

Oswaldo Coimbra    24/08/2018 17:47

 

Uma sala de aula é como a toca de coelho por onde transita a Alice. Através do qual os alunos podem alcançar - se não um País das Maravilhas, como a personagem de Lewis Carroll -, pelo menos a concretização de um sonho: o término da criação de si mesmos, como pessoas diferentes das que já são. Empreendimento a que dão sequência dia a dia, na frequência à escola.  
 
Ali, são muito sensíveis. Atentos tanto aos professores que lhes facilitam a travessia do buraco da toca, quanto aos que lhes obstaculizam, indiferentes ao forte fascínio exercido pelo espetáculo da autocriação humana a que podem assistir, certamente, vítimas da amargura gerada pelas frustrações impostas ao magistério.  
 
Como mostram as lembranças que um grupo de jovens, com idade média de 20 anos, tinha de seus primeiros professores, registradas a meu pedido numa aula de Expressão Verbal. Guardo-as há anos. Transcrevo algumas a seguir:  
 
1ª) “Apesar dos seus 52 anos, parecia uma criança, com sua inocência. Gostava sempre de chegar com novidades. Um dia, chegou todo vestido de preto, como um juiz de futebol. Seus bolsos estavam cheios de cartões. E, no pescoço, o apito”.
2ª) “Parecia um deus. Ou, quem sabe, um demônio. Usava um bigode mal aparado, enorme. Era muito metódico, conservador. Eu, aluna pouca expressiva, tremia à sua frente”.
 
3ª) “Era bem-humorado, na medida do possível. Uma pessoa transparente e simples. Seu modo calmo de ensinar, dava tranquilidade. Tinha ombros largos e aparência séria. Cuidadoso, explicava detalhadamente sua matéria”.
 
4ª) “Seu olhar era frio e ameaçador. Quando falava, não pedia. Ordenava. Estava sempre de mau-humor. Tudo nela parecia inadequado”.
 
5ª) “Seus olhos azuis impressionavam pela firmeza com que fitavam cada aluno, descobrindo, de imediato, quem tinha perguntas a fazer”.
 
6ª) “Eu tinha apenas nove anos. Às 14 horas, lá vinha a professor Sulamita. Alta, delgada, um amor de pessoa. Imponente, postura ereta e autoritária. Ao adentrar à sala, sofria uma metamorfose. E deixava os alunos em êxtase com suas explicações”.
 
7ª) “Tinha olhos claros, o que suavizava um pouco seu aspecto quase rude, mas, apesar da beleza, careciam de brilho e de alegria, o que os tornava melancólicos. As roupas de tão brancas tinham um tom azulado. Acredito que a vida pesou um pouco demais para ela, pois, até o seu sorriso tinha uma sombra de tristeza. Tão profunda, que, às vezes, dava pena”.
 
Como se vê, houve um professor-Chapeleiro Maluco, uma autoritária professora-Rainha de Copas, até, uma triste professora-Tartaruga, no País de Alice destes alunos. 
 
Com o que eu próprio me pareci diante deles, um dia, quem sabe, talvez, descubra.
 
(Ilustração da designer russa, de São Petersburgo, Maria Surkova)
               
 
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