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No silêncio da floresta

Oswaldo Coimbra    08/02/2019 16:21

 

Tinha vinte e sete anos. E estava farto de viver. Como se tivesse atravessado o tempo de existência de muitas gerações, do ponto de vista emocional.
 
Sua idade começou a pesar, aos sete anos. Quando desabou sobre ele os preconceitos sociais que cercavam a doença de seu pai. Até os parentes, assustados, se afastaram de sua casa. Inoculando-lhe cedo descrença sobre o valor da instituição familiar. Passou a ver a vida de seus vizinhos de classe média como uma rotina mecânica, vazia, sem sentido. E resolveu existir somente em função de algo grandioso: Deus.
 
Aos doze anos, internou-se num seminário. Iria ser padre. Quatro anos depois, contudo, enfrentou o abalo na sua fé. A Ditadura Militar havia escancarada a cumplicidade do arcebispo com os ricos da terra. E ele o viu delatando para os órgãos da repressão os mais brilhantes religiosos de seu clero.
 
Ruiu a barreira psicológica íntima consolidada por ele ao longo do histórico de dificuldades atravessado por sua família. Passou a ter seguidos ataques de pânico. Que só foram interrompidos num tratamento brutal, à base de insulina e glicose. Durante vinte dias foi mantido, a maior parte do tempo, desacordado, num hospital. Saiu dali, e, ainda meio zonzo, embarcou no navio que o retirou do ambiente malsão de sua cidade. Completou dezessete anos no mar, rumando para a grande metrópole.
 
Lá, inicialmente retraído, foi lentamente montando uma rede de afetividades, com pessoas afinadas com preocupações sociais, nele despertadas pelas encíclicas de João XXIII. Através destas pessoas, penetrou num grupo de militares democratas expulsos das Forças Armadas, que, clandestinos, se preparavam para a luta de guerrilha contra a Ditadura. Só os perdeu de vista, ao começar a trabalhar como repórter. Tinha 18 anos. E percebeu a metrópole se abrir diante dele.
 
Mas a impossibilidade de levar adiante seus estudos formais incomodava-o. Após três anos, sentia-se embotado. O único trabalho em jornal que podia conciliar com sua escola era o de revisor. Aceitou-o. Entrou na faculdade, e, leu três livros por semana, por anos. Com esta rotina, a melhora da qualidade do seu texto era evidente. Agora, por fim, tinha a sensação de deter as rédeas de sua existência. Poderia fazer, livremente, muitas coisas com ela. Inclusive, extingui-la, serenamente. Em paz consigo. Sem chocar ninguém. Teria apenas, de, antes, sumir, como o elefante que se afasta de sua manada para morrer no fundo da floresta. Isolado, e, em silêncio.
 
Percebeu que seus conhecidos haviam se habituado à ausência dele, quando completou cinco anos como hóspede de um pequeno hotel no centro da metrópole. Sentiu-se livre. Preso ainda apenas a uma curiosidade. Sobre o “satori” budista. "A iluminação mística repentina realmente mostra para um ser humano ângulos bonitos dos homens, da vida, dele mesmo", indagava-se?
 
(Ilustração: pintura de Shaun Daniel Wane, de Leeds, no Norte da Inglaterra)
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