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Guevara: sua beleza, seu destino

Oswaldo Coimbra    08/03/2019 16:53

 

Vinicius de Moraes, como todo poeta, tinha espontaneidade de criança. Numa cena de conversa, gravada e postada na internet, ele aparece cercado de amigos bem- humorados. Que o desafiam, num tom brincalhão, a revelar como gostaria de voltar ao mundo, se houvesse reencarnação. Inicialmente, ele diz: “Gostaria de voltar como sou”. Mas, surpreende e diverte seus ouvintes, acrescentando: “Apenas com o pingolim um pouquinho maior”.
 
Bom, aquela suposta insuficiência que o poeta notava em sua anatomia, de qualquer forma, não teve maior influência em sua vida íntima - mostraram nove mulheres, que após conhecê-los, quiseram casar com ele. Portanto, pelo menos no caso dele, exige cuidado a sustentação da tese de Simone de Beauvoir, segundo a qual “o corpo é um destino”. Não que em outros casos isto não se mostre claramente. Como nos dos rapazes que conseguem atuar em telenovelas somente por serem bonitos. E nos das moças que sobem ao altar para se casarem com sujeitos endinheirados graças à modelagem que imprimem em seus corpos nas academias.
 
Ainda assim, permanece relativa a verdade contida na tese da filósofa francesa. Vemos isto com nitidez nas biografias de dois seres humanos notoriamente bonitos, e, ainda influentes em nossos dias, embora tenham morrido há mais de quatro décadas – Elvis Presley e Che Guevara. Em que medida suas aparências físicas determinaram seus destinos? 
 
Quanto a Elvis, certamente, foram determinantes, no imenso êxito da sua carreira artística, seu talento rítmico de intérprete, sua voz privilegiadamente empostada - num período da música popular ainda influenciado pelo canto operístico -, e, o gênero musical, dentro do qual se ele firmou como rei. O qual atendeu à necessidade da juventude de expressar inconformismo comportamental, diante dos adultos que haviam levado a humanidade à Segunda Guerra Mundial. Ao lado disto, no entanto, obviamente, Elvis pôde se valer de sua beleza física para incrementar a carga de sensualidade, desde então, e, de modo definitivo, embutida nas apresentações de artistas do rock and roll.
 
Mais difícil é vislumbrar na trajetória de Guevara a presença da tese de Beauvoir. Pois, na verdade, a beleza física do argentino só se tornou relevante depois que ele foi morto. Seus executores tiveram de provar que o grande incentivador das transformações sociais revolucionárias naquela época já não existia. Como fazer isto, se o guerrilheiro que eles haviam aprisionado e fuzilado parecia um mendigo? Para que Guevara emergisse naquele corpo sujo, coberto de trapos, tiveram de mandar banhá-lo, cortaram seus cabelos e barba, arrancaram-lhe os farrapos. Assim, o cadáver exposto na rústica lavanderia do interior da Bolívia mostrou seu rosto de nazareno crucificado. Como uma escultura da Renascença.
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