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Caetano, Marighella, Lurdinha

Oswaldo Coimbra    12/04/2019 17:35

 

Foi por terem ousado desfrutar de liberdade absoluta de criação, em pleno período da Ditadura Militar, que Caetano Veloso e Gilberto Gil foram presos, no final de dezembro de 1968, E, tiveram de se exilar em Londres. Não, portanto, por terem sido acusados de pertencer a alguma organização política de oposição. Oficialmente, eles teriam ofendido a bandeira brasileira e o Hino Nacional. De qualquer modo, ambos simpatizavam com as diferentes lutas travadas pelos opositores do regime militar. E Caetano acompanhava, solidário, até a mais radical e perigosa destas lutas, a armada. Enquanto, ao mesmo tempo, irritava os esquerdistas conservadores por não utilizar chavões populistas vistos como Arte de Protesto. 
 
Quando, no dia 4 de novembro de 1969, Carlos Marighella, líder organização de esquerda clandestina armada ALN-Aliança Libertadora Nacional, foi assassinado pela polícia política da ditadura, Caetano, em Londres, sentiu profunda desesperança. E expressou isto num artigo enviado para o Pasquim. Na linguagem tortuosa que impunha a necessidade de driblar a vigilante censura da Polícia Federal. Escreveu: “Talvez alguns caras no Brasil tenham querido me aniquilar. Mas eu, agora, quero dizer aquele abraço a quem quer que tenha querido me aniquilar porque o conseguiu. Gilberto Gil e eu enviamos de Londres aquele abraço para esses caras. Não muito merecido, porque, agora, sabemos que não era tão difícil, assim, nos aniquilar. Mas, virão outros. Nós, estamos mortos”.
 
Passadas quatro décadas, ele iria surpreender parentes e amigos ao revelar que teria colaborado com a guerrilha urbana, caso a aproximação dele com a ALN não tivesse sido interrompida por sua prisão. Caetano, naquele ano de 2012, tinha gravado uma canção em homenagem a Marighella. E, num artigo intitulado “Lurdinha”, publicado pelo jornal O Globo, contou: quem o aproximou da ALN foi Maria de Lourdes Rego Melo Vellame, ex-colega de sala, na Faculdade de Filosofia, da UFBa. A ela Caetano se referiu, daquela forma carinhosa, já no título do seu texto. Lembrou: “O tropicalismo tinha uma fome estética de violência que se traduzia em imagens fortes nas letras, sons elétricos e distorcidos nas bases, aproximação com a vanguarda radical da música clássica”. Isto, segundo Caetano, correspondia, politicamente, a uma impaciência com a inatividade do velho Partido Comunista, numa identificação com a nascente dissidência liderada por Marighella. Ele prosseguiu: “Lurdinha, que nunca fez coro às reações antipáticas ao nosso trabalho, por parte da esquerda, sentia a mesma impaciência que eu. Só que ela nunca fora nem boêmia, nem retórica. Seu sentimento tinha de se expressar em ação. Quando ela me pediu um eventual apoio logístico, acedi de imediato”.
 
Por muito tempo, Caetano ficaria sem notícias da ex-colega. “Temia que ela não estivesse viva”, admitiu. Mas, descobriu, ela sobreviveu e retornou à Bahia.
 
 
(Na ilustração: O ex-aluno da UFBa, Caetano, com a namorada Dedé, em 1967, diante do balcão da Paraense Transportes Aéreos, de Congonhas)
 
 
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