O amor será eterno. Novamente.

Oswaldo Coimbra - 30/08/2019 16:22

Como não sentir compaixão pelo nosso país, quando basta passar pelo marco zero da sua cidade mais poderosa para se entrar num...

colun18 de Guarulhosweb
Como não sentir compaixão pelo nosso país, quando basta passar pelo marco zero da sua cidade mais poderosa para se entrar num pesadelo? No qual, foram transformados em seres sujos, andrajosos, de olhos arregalados, entupidos de cachaça e crack, jovens brasileiros com potencial para construir casas, estradas, pintar paredes, cozinhar alimentos, realizar, enfim, tudo de que são capazes os anos e anos de mão-de-obra à espera de uso em seus músculos e mentes. E, misturados a eles, igualmente entorpecidos pela fome distraída com álcool, brasileiros velhos, conhecedores da sobrevivência demorada e precária na qual geraram filhos, que viram crescer, se não foram extintos no cenário de abandono social das crianças pobres brasileiras.
 
Quando a Praça da Sé, em São Paulo, exibe este quadro assustador, não é necessário circular por outros bairros da cidade para saber, antecipadamente, o que mostram suas calçadas. Nem exige muito esforço antever o que acontece em outras cidades do País. 
A visão angustiante destes brasileiros traz imediatamente a compreensão do grau de perversidade de seus irmãos de nacionalidade, detentores de poder político e econômico, usado apenas para servir a seus interesses particulares. Sem se importar por empurrarem para a aniquilação multidões de patrícios seus, como os nazistas que forçavam judeus, também patrícios deles, a caminharem para fornos crematórios.
 
Quanto imediatismo nesta cegueira da ambição desmedida! O povo judaico não foi eliminado. Ao contrário. Da estupidez nazista brotou a consagração pela ONU de uma lista de direitos humanos. Hoje, é verdade, negados aos jovens e velhos da Praça da Sé (e de todas as calçadas do Brasil). Mas, isto também não os eliminará. Por motivos facilmente identificáveis em dois favelados do Rio de Janeiro, num passado recente. O primeiro, servente de pedreiro, com baixa escolaridade, aos 17 anos, passou se embebedar em prostíbulos, dormindo em vagões de trens. O outro, chegou aos 58 anos como um velho da Praça da Sé. Diferente, apenas, no ambíguo privilégio de dispor de lugar coberto para dormir, numa vila de miseráveis. Foi o primeiro, Cartola, que se tornou o mais importante compositor do principal gênero musical popular brasileiro – o samba. E, o segundo, Nelson Cavaquinho, criou canções tão densas sobre a condição humana que mereceu o título de “Sartre da Mangueira”. Nos acervos de melodias originais e belas que deixaram, duas receberam letras dedicadas à força que mantém de pé os seres humanos. E, os eleva, nas piores condições. “Finda a tempestade, o Sol nascerá”, diz Cartola em “O Sol Nascerá". “Do mal será queimada a semente. O amor será eterno, novamente”, assegura Nelson, em “Juízo Final.
 
(Ilustração, Nelson Cavaquinho, aos 58 anos de idade)

Veja Também

Duas coisas que sei sobre o Rei

Roberto Carlos dizia que gostava de Paulo Salomão, já falecido, porque ele tinha "cara de bandido". Talvez isto...

14/09/2019 21:45
Duas coisas que sei sobre o Rei

Roberto Carlos dizia que gostava de Paulo Salomão, já falecido, porque ele tinha "cara de bandido". Talvez isto...

14/09/2019 21:45
Pinote de coração quebrável

Jornalista não fala de si mesmo, na mídia na qual dispõe de espaço. Porque o narcisismo dele não tem serventia para...

06/09/2019 13:50

Colunistas

Fernando Calmon
Fernando Calmon
Fernando Calmon
Mundo das palavras
Oswaldo Coimbra
Oswaldo Coimbra
Sabedoria Oriental
Julio Ganiko
Julio Ganiko
Plinio Tomaz
Plinio Tomaz
Plinio Tomaz
Erivan Monteiro
Erivan Monteiro
Erivan Monteiro
Artigos
Artigos
Artigos