Pinote de coração quebrável

Oswaldo Coimbra - 06/09/2019 13:50

Jornalista não fala de si mesmo, na mídia na qual dispõe de espaço. Porque o narcisismo dele não tem serventia para...

colun18 de Guarulhosweb
Jornalista não fala de si mesmo, na mídia na qual dispõe de espaço. Porque o narcisismo dele não tem serventia para os leitores. Vejamos, porém, se é possível usar o detestável pronome “eu”, sem perder a esperança de ser útil.
 
Há alguns anos, acordei, no meio da madrugada, com vontade de me sentar numa cadeira da cozinha. Fiquei, ali, sossegado. Quando meu coração deu um pinote medonho. Parecia gato assustado com trovão. E pior, se tornou relógio maluco, com peças fora de seus eixos. Apavorado, dei um salto da cadeira. Tive certeza de que estava morrendo. Mas, lentamente, a engrenagem do coração se rearranjou. Voltei para a cama impressionado com aquilo. No outro dia, por acaso, as televisões exibiram alertas de associação de cardiologistas contra a morte subida provocada por arritmia. Tratei, portanto, de marcar consulta médica. O cardiologista ouviu meu relato e logo me encaminhou para uma sala de teste ergométrico. Mas, poucos minutos após a esteira começar a rodar, o aparelho foi desligado. O técnico que acompanhava o exame explicou: "Sua pressão arterial já atingiu a submáxima".
 
Sem entender o que ele disse, voltei para a sala do médico, com o resultado do teste. Ao folheá-lo, ele sacudiu a cabeça num sinal de inconformismo. "Apareceu alguma coisa grave?", perguntei. Ele, seco, disse: “Sim”.  "Algo que exija medida urgente", quis saber. Ele, de novo, confirmou. E saiu da sala. Quando retornou, avisou: “Liguei para a sala de cirurgia cardíaca de um hospital. Estão esperando você lá”.  No hospital, fui submetido a um cateterismo. Que revelou 80 e 90 por cento de obstruções em três artérias coronárias. O cirurgião-chefe alertou: eram urgentes as implantações de stents na desobstrução das artérias.
 
Programada a angioplastia, eu deveria aguardá-la, em casa, por três dias.  O médico me preveniu quando à possibilidade de morrer na rua. De modo curioso. “Vá apenas até o jornaleiro da esquina, e, volte. Porque se CAIR na rua, sua família não vai gostar”, disse. Os stents foram implantados. E cinco anos depois, novas obstruções de 80 e 90 por cento das coronárias apareceram. Contrariando definitivamente minha certeza antiga de que não devia me preocupar com o coração porque fazia exercícios físicos diários, havia décadas. Mas havia outra surpresa. Há um ano, numa glândula – a próstata – que mantinha sob cerrada vigilância apareceu um câncer de nome curioso; “indolente”. Isto é, pouco propenso a se expandir. Como confirmou nova biópsia, realizada no mês passado. 
 
Que serventia pode ter este relato tão pessoal? Possivelmente só uma. A de uma tentativa de mostrar que a vida termina, é verdade óbvia, mas os sinais da proximidade do fim não devem envergonhar. Se não falarmos deles, que chance teremos de driblá-los? 
 
(Na ilustração: estojo vintage de comprimidos para o coração)

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