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O que pode ser dito, quando se quer silenciar?

Oswaldo Coimbra    07/06/2019 15:11

 

Há quem carregue o peso do hábito de buscar, dentro de si, palavras capazes de transmitir para outras pessoas algo que indique esperança, numa avaliação a que só se chega levando em conta três fatores. 1º) As circunstâncias julgadas impositivas da veiculação de determinada mensagem, num certo momento. 2º) A suposição de existência de capacidade, em quem julga a mensagem necessária, para usar as palavras, tendo em vista a formulação dela; c) a autoindução da obrigação de sempre dizer algo útil a outros seres humanos, provocada por alguma situação do passado, não identificável, ou, quem sabe, forçada por alguém ainda igualmente obscuro. 
 
Para quem suporta esta sina nada é mais estranho - e inquietante – do que uma constrangedora vontade de se manter em silêncio. Paralisado, sem pronunciar ou digitar uma única letra. Como está Anna, sentada diante de uma parede do interior de sua casa, na tela pintada, em 1885, por seu irmão, Vilhelme Hammershoi, o dinamarquês, poeta visual do silêncio. Em busca angustiante de trégua, que cessasse a perseguição diária desencadeada pelas palavras, numa manifestação de inclinação para esvaziar a mente de todas as percepções e todos os raciocínios, até transformá-la naquela tela branca almejada pelos zen-budistas.
 
Desgraçadamente, contudo, nestas circunstâncias, à mente viciada em palavras logo acorre uma indagação incômoda: “quem não sabe que o silêncio é também linguagem?”. Para rebaixar mais as chances de paz, imediatamente, outra pergunta igualmente inconveniente, brota nela: “o que poderia estar sendo dito, neste silencio desejado?”.
 
Não há como evitar a evidência: neste ensaio de silêncio dispara um alarme, anunciando colapso no costumeiro uso da comunicação verbal. Algo grave, pesado. Capaz de ameaçar com isolamento, solidão e autoconfinamento quem, de tanto imbuir-se do encargo de falar e escrever, passou a só sentir as pulsações do ato de existir – em si e nos outros – em palavras. Nas quais se possa inserir sentimentos, percepções e reflexões para oferecê-los às pessoas. E, igualmente, nas palavras que das outras pessoas se recebe, quando nelas vem entalhado algo semelhante. 
 
Neste esboço de silêncio - contrariado - há, portanto, uma carga de tristeza e desânimo, que manchariam aquela tela branca, símbolo da paz de espírito.
 
Há esta carga de sentimentos gerada na admissão da incapacidade de compreender as circunstâncias vigentes. Admissão amarga porque traz uma sujeição. A da anulação da capacidade de exprimir-se satisfatoriamente através das palavras.
 
Impõe-se, assim, um impulso no rumo da humildade. Que, se esmaga a vontade de escrever ou falar, mesmo assim, pode esconder uma esperança – a única que deveria ser verbalizada. A de que num futuro distanciado por tempo não dimensionável, possa existir entre nós uma conjuntura menos perversa. Afinal, o que nos resta?
 
(Ilustração: o silêncio pintado por Hammershoi)
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