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Fado Bicha (e subversivo)

Oswaldo Coimbra    22/06/2019 18:36

 

Como Caetano Veloso e Chico Buarque, no Brasil, Tiago Lila, criador da dupla Fado Bicha, quando começou a se projetar no meio artístico de Portugal, em 2017, tinha pouco mais de vinte anos de idade e acabara de sair da universidade. Hoje, junto com outro jovem, o guitarrista João Caçador, enfrentam o conservadorismo e a intolerância sexual de parte de seus patrícios, na busca de uma revolução estética-comportamental semelhante a que Caetano, na idade deles, liderou no Brasil. E, como Chico, naquele período, enfrentam também defensores de uma ditadura – no caso deles, a do salazarismo.
 
No final do ano passado, ao entrevistá-los, uma importante publicação eletrônica de Portugal, a Sapo.pt, apresentou-os como os artistas “mais disruptivos (rompedores de fronteiras) no panorama musical lusitano. Tiago, na entrevista, enfatizou que Fado Bicha mantém também “um lado ativista forte”. A dupla, afirmou, escolheu conscientemente o nome que incorpora palavra - bicha – de conotação pejorativa. “Sabemos quão repulsivo é só a expressão "Fado Bicha" para muitas pessoas”, disse Tiago. Mas para os dois artistas bicha é símbolo da subversão introduzidas por eles, através de vários recursos, nas músicas que apresentam e na forma de apresentá-las. Por exemplo, eles alteram - ou até mesmo recriam - textos veiculados em antigos fados com o intuito de dar existência poética a uma parte da população portuguesa – abrigada na legenda LGBT – antes praticamente ausente da música popular. Outro exemplo, cantam fado sem acompanhamento dos instrumentos do gênero musical, substituídos pela guitarra elétrica de João. E ainda mostram nos palcos aparência distante da dos antigos fadistas. Tiago encarna uma personagem drag queen..
 
A todos estes elementos, o Fado Bicha ainda acrescenta a marca do engajamento político mencionado por Tiago. Quando interpreta “Lisboa, não sejas francesa”, o velho fado passa a ter versos como: “Dizes que não és racista, senhora Lisboa. Vou dar-te só uma pista. Lembras-te do quanto chutastes para um canto quem filho do Império (Português) fora? Do Jamaica à Cova da Moura (enclaves de imigrantes africanos, em Lisboa). Lisboa colonialista. O racismo persiste porque é estrutural. Lisboa, onde sempre se berra: ‘Vai pra tua terra!’ -, revisita a tua História, senhora Lisboa. Aprende a quem deves memória: os caídos de tua Coroa. Chega de enaltecer um império assente em escravatura. Lisboa, (com rua) limpa (só) por mulheres, às quais não conferes direito de sonhar. A corja do Dia da Raça, que, agora ri, no sofá da televisão, a falar bem do Salazar. (Ele) é só um nazi. Lisboa, com ecos da PIDE (polícia política do salazarismo). Segurança para quem? Lisboa, cassetete fascista é bosta”.
 
Outro tipo de atuação política o Fado Bicha teve às vésperas da última eleição presidencial no Brasil. A dupla apoiou publicamente a campanha “Ele Não”. E, em vídeo postado no Facebook, João fez um apelo aos brasileiros residentes fora do Brasil: “O Fado Bicha rebela-se contra qualquer tipo de discurso ou ação que promova a violência, a discriminação, o preconceito, o não-diálogo. Por isto, apelamos: não votem em candidato fascista!”
 
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