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Crise e assédio de investidores mexem com mercado das escolas tradicionais em Guarulhos

Texto e foto: Paulo Manso    16/07/2019 14:46

 

No ano em que completa 24 anos, o tradicional Colégio Novo Rumo fechou as portas em Guarulhos, pegando funcionários e alunos de surpresa. No dia 18 de junho, os mantenedores reuniram as famílias para informar o encerramento das atividades. “Os funcionários e professores nos apoiaram bastante, assim com as famílias. Quando fizemos a reunião, muitos ficaram emocionados, chorando, querendo nos abraçar”, lembrou o administrador de empresas Maurício Berbel, diretor administrativo e financeiro do colégio, que manteve as aulas dos alunos do 9º do ensino fundamental ao 3º do médio até o fim do ano.
 
Em entrevista ao GuarulhosWeb, Berbel afirmou que passa pela triste fase de fechar os acordos de demissão com os 45 funcionários. “Nós estabelecemos que a prioridade seria resolver a questão da recolocação dos alunos e a saída menos traumática possível dos colaboradores”.
 
Mas o que teria levado o Novo Rumo à drástica medida de baixar as portas? Segundo Berbel, dois fatores principais: a crise econômica que corroeu as reservas financeiras tanto do colégio quanto das famílias; e o aumento do assédio de grandes fundos financeiros sobre grupos escolares menores.
 
“Há uns 3 anos a gente vinha sendo abordado por alguns fundos de investimento interessados no colégio. Isso acabou preparando a gente para essa mudança, pois fizemos vários levantamentos, planilhas de número de alunos, preço médio, índice de inadimplência etc. Não fechamos com ninguém, mas nossa situação financeira, que vinha equilibrada até certo ponto, se ajustando, piorou muito neste ano”, lamentou.
 
O mantenedor disse que a inadimplência explodiu em fevereiro. “Nós deixamos de receber quase R$ 40 mil, o que equivale a praticamente 20% do que teríamos a receber. Imagina o estrago que isso faz”, apontou. Em março, o rombo foi de aproximadamente R$ 30 mil. “Aí a gente começou a ficar muito assustado. Eu percebi que isso viraria uma bola de neve e a gente chegaria em agosto, setembro sem condições de arcar com a folha de pagamento”.
 
Foi quando ele procurou o Colégio Parthenon, com quem tem proximidade, e falou que havia a possibilidade de transferir a carteira de clientes para eles. “Eles foram sensíveis e a gente percebeu que se transferíssemos os alunos de 1º a 8º ano eles seriam bem acolhidos nas turmas que existem e, então, nós decidimos fazer o encerramento da escola para evitar um mal maior”.
 
Rescaldo da crise
Para o diretor, a demora em estancar a crise financeira pela qual passou o País levou à situação atual. “Em anos anteriores, a gente foi queimando margem que tínhamos. Depois, as famílias também foram queimando suas reservas. Temos casos aqui de famílias que passavam dificuldades para pagar, mas depois vendia um carro, recebia indenização na saída de um emprego e quitava tudo. Mas, nesse ano, as pessoas chegaram em um ponto no qual seu limite também já não existe. Um pai que ficou inadimplente em fevereiro não conseguia mais negociar comigo”, disse.
 
Mercado dos gigantes
O caso do Colégio Novo Rumo não é único na cidade. O GuarulhosWeb apurou que outros colégios tradicionais passam por dificuldades financeiras e alguns até torcem para que acordos com grandes investidores sejam ratificados. Para Maurício Berbel, essa tendência começou no ensino superior e, agora, é uma realidade no mercado da educação básica.
 
“O mercado educacional vem se transformando rapidamente. O que aconteceu há alguns anos, com os grandes grupos comprando Anhanguera, Estácio etc., chega agora por aqui. Nas universidades chegou-se a um limite imposto pelo CADE. Com isso, esses fundos passaram a atuar no mercado de educação básica, que do ponto de vista de negócios é uma linha menos rentável, com custos mais difíceis e uma forma de lidar mais complicada. Mas o tempo maior de permanência do aluno nas escolas na educação básica atraiu esses grupos e isso está transformando esse mercado”, apontou.
 
Para o presidente da Associação das Escolas Particulares de Guarulhos (AEG), Wilson Lourenço, esse comportamento é natural e inevitável a qualquer setor de atividade. “Com as farmácias aconteceu a mesma coisa. Antigamente a gente conhecia o farmacêutico do bairro e, com o tempo, os grandes grupos começaram a se juntar, comprar os menores e hoje temos as grandes marcas predominantes. Com os supermercados foi igual, assim como as redes de laboratório, para citar apenas esses exemplos”, disse.
 
Para Lourenço, nenhum ramo de atuação está livre dessa possibilidade de reinvenção. “Um taxista que tinha um negócio valendo R$ 200 mil viu, de repente, isso acabar. Esse tipo de movimento dá um ‘chacoalhão’ no mercado, mas com o tempo isso se adapta. Na educação, isso também vai chegar e quem ganha é o consumidor”.
 
Assédio dos investidores é ameaça?
Para Maurício Berbel, o aumento do interesse dos grupos de investidores alivia o sufoco financeiro dos pequenos, que se veem obrigados a vender, mas ameaça os grandes, que acabam ficando no dilema de aceitar o investimento ou negar e ver um concorrente crescer. “Aqui em Guarulhos você tem escolas fechando, mas tem a Vereda chegando, que é um outro modelo, montada para ser de custo baixo com ganho de eficiência e uma qualidade bem legal, que vira um concorrente difícil de enfrentar. As escolas maiores com certeza já foram procuradas por investidores. Algumas podem estar negociando, outras podem ter negado, mas todas têm um ‘fantasma’ que é: ‘se eu não vendo e meu concorrente for vendido ele pode ficar mais competitivo’”.
 
Já Wilson Lourenço não enxerga esse movimento dos investidores como uma ameaça. Para o presidente da AEG, as características da educação básica são diferentes do ensino superior. “Na educação básica existe uma dificuldade maior: é muito mais pulverizado. As grandes escolas têm aproximadamente 2 mil alunos. Nas demais isso é muito espalhado. No ensino superior os investidores compravam no Brasil inteiro. Em apenas uma faculdade, por exemplo, eles têm 10 mil alunos. Guarulhos tem cerca de 300 escolas. A maior parte delas tem até 100, 150 alunos. São escolas com estrutura pequena”, ponderou.
 
Para ele, que também é dirigente do Colégio Carbonell, na educação básica as famílias querem saber quem é o diretor, o coordenador, o professor de seu filho. A relação instituição x cliente é diferente daquela do ensino superior, onde você lida com adultos. Não acredito que, de repente, chegará um ou dois grupos que acabarão com a variedade que hoje atende à variedade de expectativas das famílias. Não sei se um serviço ‘de prateleira’ vai encantar a todos uniformemente”, completou.
 
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Comentários:

  1. Anônimo 16/07/2019 20:45

    Colegio 100 Rumo

    Seia interessante ir mais afundo. Peguntar para os pais o que esta acontecendo de fato com os alunos. É uma situação muito desagradável... para não falar outro nome...

  2. Toninho Bonvenuto 16/07/2019 19:00

    Caso Novo Rumo

    Quero parabenizar aos Mantenedores do Colégio Novo Rumo pela transparência e sensatez em suas atitudes! Foram honestos e firmes até onde aguentaram, o que me entristeceu nesse episódio foi ver Instituições querendo se beneficiar com o ocorrido, sem se quer entrar em contato com o Colégio Novo Rumo!

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