"Economia global se fortalecerá, mas caminho é precário", diz diretora do FMI

Celia Froufe, enviada especial - 09/06/2019 08:10


Durante a tensa reunião ministerial realizada ontem em Fukuoka, no Japão, durante o encontro do grupo das 20 maiores economias do globo (G-20), a diretora-executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, disse que a economia global está mostrando sinais de estabilização e o crescimento está projetado para se fortalecer. "Embora seja uma boa notícia, o caminho a seguir continua precário e sujeito a vários riscos negativos", disse, segundo material distribuído há pouco pelo Fundo. "A principal ameaça é a continuação das tensões comerciais", continuou.

O FMI estima que as tarifas EUA-China, incluindo aquelas implementadas no ano passado, poderiam reduzir o nível do Produto Interno Bruto (PIB) global em 0,5 ponto porcentual em 2020, ou cerca de US$ 455 bilhões - o que poderia reduzir significativamente a estimativa projetada para a atividade econômica. O Fundo também apontou que as taxas de juros estão muito baixas, há elevação dos níveis de endividamento em muitas economias avançadas e vulnerabilidade dos mercados emergentes a uma súbita mudança nas condições financeiras. E tudo isso, conforme a instituição, em um momento em que o espaço da política monetária e fiscal é mais limitado do que no passado.

"Para mitigar esses riscos, enfatizei que a primeira prioridade deveria ser resolver as tensões comerciais atuais - incluindo a eliminação de tarifas existentes e evitar tarifas novas - enquanto precisamos continuar a trabalhar para a modernização do sistema de comércio internacional", descreveu no comunicado. "Essa seria a melhor maneira de os formuladores de políticas darem mais certeza e confiança às suas economias e ajudarem, e não impedirem, o crescimento global", continuou.

Ao mesmo tempo, conforme a diretora, aa maioria dos países, a política monetária deve continuar dependente dos dados e acomodatícia. Segundo ela, a política fiscal deve equilibrar cuidadosamente o crescimento, a dívida e os objetivos sociais. E as reformas estruturais - desde a abertura dos mercados até o incentivo à maior participação das mulheres na força de trabalho - devem ser usadas para estabelecer as bases para um crescimento mais forte e inclusivo. Se esses tipos de medidas forem implementados em conjunto, o FMI estima que eles poderiam aumentar o nível do PIB do G-20 em 4% no longo prazo.

"É claro que também é necessária uma ação conjunta em muitas outras áreas: no imposto internacional - para garantir um sistema globalmente justo, sustentável e moderno. No setor financeiro, para garantir um sistema aberto e resiliente baseado em padrões internacionais acordados. E na área da dívida - particularmente para os países de baixa renda -, onde a cooperação é essencial para garantir transparência e sustentabilidade", citou.

O Broadcast apurou ontem que os ânimos se exaltaram durante a reunião após a fala de Christine. A projeção já havia sido publicada no dia 5, mas foi o gatilho para que a sessão que discutia a escalada das tensões comerciais sobre a economia global se transformasse em um "fogo cerrado", como descreveu a fonte. Diversas delegações passaram a centrar seus comentários nessa questão e a pressionar os americanos. Os chineses preferiram não adotar uma postura tão direta, mas também demonstraram insatisfação. Os Estados Unidos, por sua vez, ficaram na defensiva.

Apesar de tudo ter ocorrido de forma muito diplomática, como costumam ser as reuniões ministeriais, a empreitada para cima dos americanos mostra o desconforto do mundo em relação à postura protecionista dos Estados Unidos. As discussões em torno das preocupações comerciais sobraram também para os britânicos. Várias delegações se mostraram igualmente incomodadas com o impacto da retirada do Reino Unido da União Europeia, o chamado Brexit. Os representantes da Grã-Bretanha, no entanto, garantiram que não haverá um hard Brexit, ou seja, a saída do bloco comum sem que ocorra um acordo entre as partes. Nos últimos dias, depois da renúncia da primeira-ministra Theresa May, a perspectiva de que um ruptura maior pudesse ocorrer voltou ao radar de observadores, investidores, empresários e famílias europeias. A premiê ficará no poder até que um substituto seja escolhido pelo Partido Conservador.

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