China diminui seu apetite pela América Latina

Rodrigo Turrer - 09/06/2019 09:16


Em maio de 2015, a então presidente do Brasil, Dilma Rousseff, recebia no Palácio do Planalto o primeiro-ministro da China, Li Keqiang. Após os ritos oficiais, os dois assinaram uma série de parcerias. A principal delas: um investimento de US$ 50 bilhões para a criação da ferrovia bioceânica, que atravessaria a América do Sul, entre Peru e Brasil, e conectaria os oceanos Atlântico e Pacífico.

Quatro anos depois, Keqiang segue no cargo, Dilma sofreu impeachment e nada saiu do papel. A bioceânica é um retrato da situação dos investimentos da China na América Latina nos últimos dois anos: planos grandiloquentes, altos investimentos, mas realizações tímidas.

A China segue com interesse pela América Latina, mas a vitória de partidos de direita na região, atrasos e descumprimento de prazos, corrupção e maior atenção chinesa a projetos na Ásia e na Europa, como o da nova Rota da Seda, conhecido como "One Belt One Road", fizeram o investimento chinês diminuir na região nos últimos dois anos.

Fusões, aquisições e investimentos privados caíram de um nível recorde de US$ 17,5 bilhões, em 2017, para apenas US$ 7,6 bilhões, em 2018, segundo o Global Development Policy Center. E os bancos chineses - Banco de Desenvolvimento da China e Banco de Exportação e Importação da China - emitiram níveis de financiamento comparativamente baixos para os governos latino-americanos nos últimos dois anos.

"A América Latina é vista como uma terra cheia de vitalidade e esperança na política oficial da China, mas os investidores chineses há muitos anos consideram a distância e a cultura latino-americanas empecilhos para negociar", afirmou ao Estado Zuo Pin, da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai. "Os ambientes normativos, os processos de licitação pouco claros e a complexidade logística das empresas chinesas de acompanhar obras e execuções a mais de 15 mil quilômetros de distância são alguns dos principais problemas."

A Bolívia é um exemplo das apostas de alto risco. Em 2016, o presidente boliviano, Evo Morales, recebeu o chanceler da China, Wang Yi, para anunciar um crédito chinês de US$ 4,85 bilhões para que o país aplicasse em nove projetos de infraestrutura. Apenas um saiu do papel, a rodovia El Sillar, que liga Cochabamba a Santa Cruz.

No caso da Venezuela, a instabilidade política se tornou uma fonte regular de estresse para políticos e investidores chineses, e para bancos e empresas que operam no país. Apesar do apoio político ao chavismo, em 2018, o governo chinês interrompeu a concessão de empréstimos à Venezuela, um sinal da impaciência de Pequim com Nicolás Maduro. A torneira financeira foi reaberta em 2019, mas em níveis menores do que em anos anteriores.

Os casos de Venezuela e Bolívia são os mais evidentes, mas alegações de corrupção também afetam outros projetos chineses na região, incluindo uma concessão ferroviária de Querétaro, no México, e duas hidrelétricas na Argentina. Desde 2002, as estatais da China e os bancos manifestaram interesse em cerca de 150 projetos de infraestrutura de transporte na América Latina, mas apenas a metade entrou em fase de construção.

Além disso, há também a concorrência com os ambiciosos projetos da nova Rota da Seda, investimentos em infraestrutura na Europa, Ásia e África, que podem chegar a US$ 1,9 trilhão nos próximos anos. "A China é retardatária na área de investimentos internacionais e é forçada a alocar capital para países e regiões com maiores riscos", diz Wang Yongzhong, economista do Instituto de Economia e Política da China. "Mas há um limite para o grau de risco admitido, e dez anos de investimento com pouco retorno é um mau negócio para qualquer um."

Por questões políticas, países como Equador e Argentina reduziram em quase 50% seus pedidos de financiamento para a China, para não aumentar o nível de dívida soberana comprometida com os chineses. Muitos países estão sentindo uma pressão considerável de Washington para evitar grandes acordos com a China, caso do México e de países do Caribe, e até mesmo do Brasil.

"Embora as reservas internacionais da China tenham crescido, os limites prováveis do crédito disponível obrigarão os bancos e estatais chineses a escolher projetos no exterior com mais cuidado", escreveu Margaret Myers, diretora do centro de estudos Inter-American Dialogue, na revista Americas Quarterly. "Empresas e bancos chineses tendem a buscar oportunidades mais próximas de casa, onde os custos são mais baixos e as redes, bem estabelecidas." As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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