Chico tocou nas dores de Elis Regina

Oswaldo Coimbra - 08/11/2019 15:52

colun18 de Guarulhosweb
A letra escrita por Chico Buarque para “Atrás da Porta” é uma das mais dramáticas manifestações de amor e ódio, dentro da História da Música Popular Brasileira”, afirma, no livro “Noites tropicais”,  Nelson Motta, jornalista, escritor, roteirista, teatrólogo, produtor musical, e, ele próprio também, letrista e compositor.
 
É a fala - prossegue Motta - de uma mulher amargurada por autopiedade, rancor e dor. Com a qual inesperadamente se identificou a maior cantora do País, Elis Regina – como muitos brasileiros a consideram – a ponto de gravar três vídeos com a música, ao longo de uma década. No último dos quais, dois anos antes de sua morte, dirigido por Daniel Filho, para a Tv Globo cometeu as únicas falhas técnicas conhecidos em sua carreira impecável. Tão profundamente sentiu como se fosse dela a dor íntima expressa por aquela mulher. Uma dor -  ela diria numa entrevista, “que não cabe no mundo”.
 
De tão desconcertantes, as falhas cometidas por Elis se tornaram objeto de estudo de dois especialistas em apresentações cênicas de músicas populares: Fausto Borém, professor titular da Escola de Música da UFMG, e, Ana Paula Taglianetti, mestre em Performance Vocal.
No seu estudo, eles compararam o vídeo gravado para a Tv Globo com os vídeos anteriores de Elis, com a mesma música. Um dirigido por Fernando Faro, para o programa “Ensaio” da TV Tupi. Outro, pelo premiado cineasta Roberto de Oliveira. 
 
Contrastaram suas as expressões faciais, as emissões vocais e a movimentação corporal, em cada trecho da música. Fausto e Ana perceberam que duas primeiras gravações, Elis tinha planejado bem suas atuações. Construiu-as como cenas teatrais claramente estruturadas. Dividindo a música, nestes vídeos, em partes, de modo que houvesse neles inícios e finais, bem demarcados. Seus clímaces, Elis também os preparou bem. Em resumo, ela manteve o tempo todo seu conhecido domínio técnico, nas duas interpretações. Para isto, deliberadamente, se valeu de variações nas inflexões de voz, ao relacioná-las com conteúdos emocionais da letra. E enriqueceu as performances. Tanto com abundância de gestos, e, movimentos corporais - de tronco, braços, mãos, cabeça - como, especialmente, com expressões faciais adequadas. Em cada detalhe, deixou um contraponto genuíno com a música.
 
Muito diferente foi o desempenho de Elis no terceiro vídeo, registraram Fausto e Ana. Até uma contração involuntária de laringe surgiu nela, quando chegou aos versos: “E duvidei. E me arrastei. E te arranhei. E me agarrei, nos teus pelos, no teu peito, teu pijama, nos teus pés, ao pé da cama, sem carinho, sem coberta. No tapete atrás da porta, reclamei baixinho”. Sua voz, neste trecho, ficou trêmula. E, por diversas vezes, falha, devido ao esforço de segurar um choro.
 
Elis caiu em espontaneísmo, constataram os dois especialistas. Reduziu seus movimentos físicos, sacrificando seu habitual planejamento cênico minucioso. As expressões faciais dela ficaram concentradas nas nuances da dor da mulher. O que a impediu de exibir a habitual variedade de sentimentos de suas interpretações.
 
Tantas falhas surgiram por quê? Indagaram-se Fausto e Ana, no estudo. Eles acrescentaram: logo em Elis Regina, a “atriz da canção” que era a personificação do ideal do performer. No auge de sua maturidade artística, quando conseguia atingir total equilíbrio nas suas apresentações, conectando cada expressão corporal sua, cada movimentação no espaço cênico, à relação que criava entre música e letra, num todo unitário.
 
A resposta que eles encontraram: a proximidade física de Elis, no palco onde ocorreu a gravação do vídeo para a Tv Globo, de César Camargo Mariano. Juntos os dois viviam “um período emocionalmente conturbado”. Com aquele brilhante pianista – único músico presente àquela gravação – Elis estivera casada até pouco tempo antes. Com ele teve seus filhos Pedro Mariano e Maria Rita.
 
Na verdade, à explicação obtida por Fausto e Ana ainda era superficial. Pois a ela teria de ser acrescentada uma revelação do livro de Nelson Motta, no seu livro. Dez anos antes, sofrimentos emocionais de Elis já tinham sido avivados por aquela letra de Chico, quando ela se separou de Ronaldo Bóscoli, pai do seu primogênito, João Marcelo.

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